Thursday, June 29, 2006

O lado errado

Vivo do lado errado. Por inércia ou falta de coragem de ir ao encontro do outro lado. Tudo podia ser diferente. Não é. Muitas vezes, por ausência de querer. Quebrar instalações exige esforço.

Wednesday, June 28, 2006

O nosso amor
é um barco à deriva
num mar de tempestade
e ruma contra os ventos
em braços de ferro derrotados
o nosso amor
é um ser maldito e atormentado
à procura de tranquilidade
já quase a desistir
apesar da esperança pintada
no imenso verde dos meus olhos
o nosso amor
é um animal sedento e moribundo
sem nascentes por perto
seco, tão seco e desenganado
sob a antevisão da morte que chega.

Este país não é para velhos

O meu espaço de sossego em dia de tpm é interrompido pelo “desbafo” (como diz uma amiga from London) da senhora que acaba de sentar-se à minha frente no metro.
- “… Este país não é para velhos, menina. Desculpe, não sei se é menina se é senhora. Como não usa aliança presumo que seja menina. Antigamente era mais fácil perceber. Agora está tudo misturado, meninas e senhoras.”
- “Sou menina.”, confirmo a sorrir. A minha mãe costuma dizer que hei-de ser velhinha sem querer ser senhora.
- “A vida tá cada vez pior... Uma desgraça. Esta coisa do euro veio estragar tudo... Imagine que agora, fazendo as contas, um molho de grelos custa quatrocentos e tal escudos! Antes, com esse dinheiro eu ia à mercearia e trazia dois ou três sacos de compras.
Sabe menina, tenho esta idade, sou doente e ainda preciso de trabalhar. Trabalho a dias em duas casas para poder comer e pagar os remédios. A minha reforma não dá p’ra nada. Este país não é para velhos, menina. Uma miséria, é o que é. Não sei onde é que isto vai parar. Do jeito que as coisas tão...”
O queixume continua caminho fora até que a interlocutora dá conta do meu silêncio.
- Tou p’ra aqui a falar, a falar e a menina nada. O que está a pensar?
-“Tanta coisa…”, respondo evasiva, tentando esboçar novo sorriso.  Tanta coisa, para não responder “Não é da sua conta.” Ou “Desculpe mas hoje estou com pouca paciência para conversas sobre a crise. Além disso, a sua ladaínha não me deixa ler o livro que trago aberto na mesma página há quinze minutos.”
Ainda bem que filtrei o mau feitio. Passada a tpm,  a abordagem da senhora ganha outra importância e converte-se no assunto desta crónica. Afinal, acredito que este país é também para velhos. No mínimo, vamos escutar o que têm a dizer.

Eu estou bem

"Eu estou bem, obrigada. A sério." Com esta e outras respostas evasivas tento proteger a auto-estima que me resta. Foi o golpe mais duro da minha existência. O amor da minha vida concluíu que eu não sou o amor da vida dele. Isto, dois dias depois de ter dito que me amava muito, muito, muito. Isto, decorridos três anos de uma história de amor avassaladora, feita de cumplicidade e paixão. Isto, a apenas um mês de assinarmos a escritura da casa dos nossos sonhos. Está a ser uma surpresa gigante. Ainda por cima, mal fundamentada (como acabam por ser todas as rupturas amorosas). Afinal, "temos pouco a ver um com o outro". É o que ele diz. Cheio de propriedade, como se evocasse a razão mais válida do mundo. Eu gosto de poesia. Ele prefere filmes de acção. Eu gosto de passear ao domingo. Ele prefere ficar em casa a fazer zapping. Eu gosto de beijinhos na boca. Ele prefere cafonés na cabeça. Eu gosto dele. Ele não sei de quem gosta. E se gosta. Aliás, sobre ele cada vez mais "sei que nada sei". Na verdade, deixei de ter certezas quando o assunto é amor... Mas tenho a impressão de que estamos a abrir mão de um romance irrepetível. Daqueles que nos fazem perceber que a felicidade é possível (por mais pirosa que possa soar). Daqueles em que são mais as razões que nos aproximam do que as que nos separam. Daqueles que nos levam a assumir sem pruridos as "almas gémeas" que somos. Porque somos. Ou fomos... Eu gosto de uma boa gargalhada. Ele faz-me rir. Eu gosto de sushi. Ele gosta de sashimi. Eu gosto de dormir abraçada. Ele gosta de abraçar-me. Eu gosto de fazer amor com ele. Ele gosta de fazer amor comigo. Eu gosto dele. Ele não sabe que gosta de mim. Um dia há-de perceber. Ou talvez não. Seja como fôr, já pouco importa. Estou desencantada. O meu coração balança entre o amor que ainda sinto e o desamor que já se instalou. Se calhar, é o curso natural das coisas. Se calhar, os meus sentimentos perderam elasticidade. De tanto serem postos à prova. Se calhar, o homem que amei este tempo todo nunca existiu. Se calhar, não passou de uma projecção feita à medida do amor que eu tinha para dar.

Tuesday, June 27, 2006

Desilusão

Consegues perceber a dor
dentro dos meus olhos?
é incógnita
e silenciosa
apesar de verdadeira e brutal
não há amor
poema
ou droga
que a torne menos doída
sem aviso
tomou conta da minha alma
e deixou-me desarmada
sem escolha
não sei como vivê-la
não sei como matá-la

talvez
morrendo.
Amo-te papá

Sob a máscara do embaraço
nunca te disse papá
o meu amor por ti
hoje decidi fazê-lo
embora o saibas já
tenho a certeza
este amor que te sinto
é o espelho do amor que me sentes
e tu
és o único fiador da sua existência
mesmo assim
quero dizer-te
de voz embargada
e pele arrepiada
que te amo muito
e quase morro quando penso
que um dia me podes deixar
sem que em mim tenha encontrado
conforto e ocasião
para dizer-te sem pudor
amo-te papá,
do coração.
Afinal

Afinal
antes de ti
nada
nada feito de muita confusão
mas
ainda assim
nada
afinal
depois de ti
tudo
tudo condensado numa explosão
loucura
orgasmo
paz
inquietação
afinal
sem ti
muito
muito feito de tudo
e de nada
síntese inevitável
de quem sobrevive
à morte da paixão.
Antecipação

Mais de mil razões para sorrir
e choro
choro com medo de perder
as mais de mil razões para sorrir
choro
porque antecipo uma dor insuportável
uma dor que não consigo distrair
apesar
das mais de mil razões para sorrir.
É cedo para o adeus

Não
as palavras entre nós não estão gastas
como diz o poeta

não
os nossos corpos não se esgotaram
apesar do cansaço

não
a esperança não mudou de cor
mesmo que tenhas deixado de acreditar

sim
há ainda muito por dizer
por cima e ao lado do que já foi dito

sim
o sopro frio ainda nos arrepia as nucas
quando a minha e a tua pele se tocam

sim
estamos ainda a tempo de segurar o amor
e fazer dele um sonho possível.
Sorriso de menino

Não é perfeito o teu rosto
mas quando o iluminas
num sorriso de menino
ficas tão bonito
tão bonito
que a minha vontade
é abraçar
de uma vez só
cada milímetro de ti
fico suspensa
sempre que me olhas e
na timidez que tanto negas
descobres em mim
o teu sorriso mais que perfeito.
Mais do que em ti

Mais do que os teus olhos
fixo o teu olhar
que acalma o desassossego que trago
mais do que os teus lábios
beijo as tuas palavras
que me falam de afecto
mais do que as tuas mãos
sinto as tuas carícias
que me inquietam de desejo
mais do que em ti
descubro em mim
que o amor vai existir sempre.
O momento

Enquanto dormes
fumo um cigarro e escrevo sobre nós
as palavras saem a conta-gotas
a escrita configura-se árida
e contrasta com a nossa cama
feita de carinho e tesão
o meu lugar ao teu lado
está agora vazio
mas apenas com um propósito
o de perpetuar no papel
este momento irrepetível
feito da certeza do nosso amor.

Monday, June 26, 2006

Quase nós

Eu estou só
ele está só
sós estamos juntos
perto de nos tocarmos
longe de nos amarmos
o meu mundo não cabe no dele
o dele não cabe no meu
são mundos de tamanhos diferentes
não fossem os mundos
eu e ele
ele e eu
seríamos nós.
Só o amor importa

Vou subir à serra
gritar: amo-te
e fazer de conta
que o eco é o teu retorno
nesse instante
que o tempo há-de parar
só o nosso amor vai existir
amo-te
amo-te
amo-te
e quanto mais forte gritar
mais forte gritarás de volta
e juntas
a minha voz e a tua
vão decidir:
só o amor importa.
Sinais de ti

Acordei contigo em mim
menino lindo de olhos tristes
o cheiro
as mãos
a voz
o beijo
a parte
o todo
a ausência
acordei contigo em mim
em mim
sobre mim
dentro de mim
tão perto da minha urgência de ti
apesar do oceano
e do resto.
A dor

dói-me tanto esta dor
vermelha
e negra
e física
de tão desatinada
a dor que fala
do vazio que há em mim
um vazio mais do que cheio
de ti
sangrento
infinito
sem misericórdia
um vazio que chegou sem aviso
e
pela demora
sem vontade de ser preenchido.
O poeta morreu

Era noite e o poeta morreu
morreu sem se despedir de mim
e com ele levou a beleza que existia
era noite e o poeta morreu
morreu sem querer saber do meu querer
e com ele levou todos os poemas de amor
era noite e o poeta morreu
morreu e deixou-me só
tão só
que me esqueci de chorar.
Dois sorrisos

nem tempo houve
para repetir o gesto
vulgarizar a palavra
suar o corpo
foi apenas um sorriso
dois sorrisos
o meu
e o teu
que me seguem
noite e dia
e dia e noite
me fazem seguir-te
dois sorrisos
que denunciam o embrião do amor
por detrás do tempo que não existiu.
Meu eu




Não te amo especialmente hoje
Não mais do que amava ontem
Mas voltei a descobrir-te


Com sorriso de menino ou sobrolho carregado
Apaixonado ou alheado
Infantil, inquieto ou sereno
Descobri-te em mim
Meu amor, meu eu


Descobri-te em mim
Uma vez mais
Cheio de ti
Cheio de mim
O desamor

O desamor do meu amor
Bateu à porta e entrou
Sem licença nem aviso prévio
A braços com a dor
Tudo em mim mudou
O coração perdeu a fé
Os olhos ficaram baços
O sorriso estreitou
O desamor do meu amor
Bateu à porta e entrou
Sem querer saber do amor
Que vive em mim.