Santa Maria Mãe de Deus
“Santa Maria Mãe de Deus!” O piropo mais simpático que um desconhecido me dirigiu. E tenho ouvido muitos por estes dias. Não por ser irresistível mas porque ao lado da minha casa está a ser concluída uma mega obra de construção. Se é que me faço entender... Voltando ao piropo, não é inédito. Não deve uma palavra à imaginação. Foi proferido por um trolha sem rosto. E evoca o nome de Deus em vão... Mas trazia com ele alma. E expressividade.
Soube-me mesmo bem ouvi-lo. Sobretudo porque surgiu dois dias depois de outro. “Esta gaja não vale um c...” Juro que teria ignorado não fosse o contexto. TPM. Poucas horas de sono. Desconforto em relação à toilete acabada de escolher. E, sejamos francos, uma afirmação desta natureza é efectivamente demolidora. Deixou-me devastada. Não que dê importância a estes “mimos” de rua. Mas doeu. Nunca ninguém me tinha descrito com tão baixos predicados. Não na minha cara. É que fora dela tanto me faz. A sério. Mas não, foi dito em voz alta. Ao vivo e a cores.
No mesmo instante, senti alguns pares de olhos anónimos sobre mim. Todos eles ávidos de curiosidade. Mal ou bem intencionados, todos olharam. Motivados por um desafio pouco dignificante. Ver a gaja que “não vale um c...” O que terão concluído? Valia ou não o dito membro? Continuo sem saber o que ficaram a pensar.
Mas, já agora, deixo-vos uma reflexão: qual o “valor de mercado” do respectivo? Como se avalia? Que premissas estão em jogo? É só para aferir a lógica da ilação que acabo de inventar: "Este c... não vale uma gaja." Que tal?
Santa Maria Mãe de Deus...
Tuesday, June 17, 2008
Monday, June 02, 2008
Diferença irritante
A par da óbvia diferença anatómica que distingue os homens das mulheres há um rol de sensibilidades que são específicas de umas e de outros.
A forma como vêem o contexto das coisas, por exemplo, é diametralmente oposta. Eu explico melhor. O sentido de oportunidade não significa o mesmo nas versões feminina e masculina. Aliás, a meu ver, os “machos” são mesmo destituídos desta noção. Por outro lado, as “fêmeas” dão por norma muita atenção aos enquadramentos...
Passo a ilustrar, a mulher raramente se atreve a comprometer o primeiro encontro, um jantar especial ou um momento romântico com o relato de um “flirt” antigo. Não interessa o quão antigo seja. Não interessa que pouco ou nada tenha significado (se nada significou por que se evoca o assunto?). Não interessa que a história tenha apontamentos de humor (a vontade de rir passa assim que a interlocutor(a) percebe que o centro da atenção é alguém que já esteve no seu lugar!). Interessa menos ainda saber de quem se trata. A abordagem é simplesmente desadequada.
Há momentos que devem acontecer apenas a dois. Sem fantasmas. Nem fantasminhas. Ponto final.
A par da óbvia diferença anatómica que distingue os homens das mulheres há um rol de sensibilidades que são específicas de umas e de outros.
A forma como vêem o contexto das coisas, por exemplo, é diametralmente oposta. Eu explico melhor. O sentido de oportunidade não significa o mesmo nas versões feminina e masculina. Aliás, a meu ver, os “machos” são mesmo destituídos desta noção. Por outro lado, as “fêmeas” dão por norma muita atenção aos enquadramentos...
Passo a ilustrar, a mulher raramente se atreve a comprometer o primeiro encontro, um jantar especial ou um momento romântico com o relato de um “flirt” antigo. Não interessa o quão antigo seja. Não interessa que pouco ou nada tenha significado (se nada significou por que se evoca o assunto?). Não interessa que a história tenha apontamentos de humor (a vontade de rir passa assim que a interlocutor(a) percebe que o centro da atenção é alguém que já esteve no seu lugar!). Interessa menos ainda saber de quem se trata. A abordagem é simplesmente desadequada.
Há momentos que devem acontecer apenas a dois. Sem fantasmas. Nem fantasminhas. Ponto final.
Monday, May 26, 2008
Esquisitices
“Tu também és uma esquisita da ...” Deixo a conclusão da frase ao critério de cada um. Que é como quem diz, à sua imaginação primária.
Há dois dias no metro fui surpreendida com a abordagem sui generis de uma avó à neta com cerca de sete anos. Seguia rumo à Alameda quando as duas entraram em Chelas. Vieram tumultuar o meu sossego num abrir e fechar de olhos.
Passo a explicar... A avó, de formas avantajadas, trazia jeans elásticos, decote generoso e cabelo descolorado. Trazia também o jeito gaiato de quem é nascida e criada num bairro pobre de Lisboa. Fez-se notar assim que entrou. Esbaforida, gesticulou para a menina sentar-se junto dela. Face à recusa daquela não hesitou evidenciar o “latim” que aprendeu na rua: “Tu também és uma esquisita da cona” ( aqui achei importante reproduzir a dita palavra). A afirmação foi proferida em tom absolutamente possante como se a razão fosse toda sua.
Fiquei em estado de choque. Não estava a acreditar nos meus ouvidos. Depois de uma breve troca de olhares com a senhora do lado não resisti a uma gargalhada. A essa seguiu-se outra e, até ao destino, fui acometida de um ataque de riso intermitente. Acho até que os meus abdominais agradeceram o exercício.
Ciente da asneira e querendo remediar o quadro, a idosa continuou a falar, mas noutro registo. Agora condescendente, acrescentou: “Mais queria ter cem netos do que ter-te a ti. Só as dores de cabeça que me causas...” E continuou numa ladaínha à beira do indecifrável. A criança, alheada dos desabafos da avó - talvez por que os ouve desde sempre - indaga com mel no olhar:
“Compras-me uma história?”
“Não senhora, a menina tem os livros da escola para ler.”
“Mas a professora não marcou trabalhos de casa, avó.”
“Ah não!? Mas que raio de professora é essa? Não entendo estas professoras modernas. Não querem é fazer nenhum.” Ao concluir a frase olha para mim em busca de aprovação. Preferi baixar os olhos porque me faltou coragem de abanar a cabeça em sinal de discordância absoluta.
Astuta, e na expectativa da minha atenção e - quem sabe - simpatia, a idosa resolveu desviar assunto. Virando-se de novo para a miúda, vestiu a capa de educadora a sério e choramingou: “Prometes à avó que nunca mais arrancas os pêlos?” “Eu não arranquei, raspei com a gilete da mãe...” Só então olhei para a criança e notei-lhe ausência de sobrancelhas. Senti de novo vontade de rir. E agora também de chorar. É que a criança era mesmo esquisita. Ela. A avó. E, provavelmente, a família toda. Mas era esquisita dos... Dos cornos, claro. Isto para não me distanciar muito do contexto.
“Tu também és uma esquisita da ...” Deixo a conclusão da frase ao critério de cada um. Que é como quem diz, à sua imaginação primária.
Há dois dias no metro fui surpreendida com a abordagem sui generis de uma avó à neta com cerca de sete anos. Seguia rumo à Alameda quando as duas entraram em Chelas. Vieram tumultuar o meu sossego num abrir e fechar de olhos.
Passo a explicar... A avó, de formas avantajadas, trazia jeans elásticos, decote generoso e cabelo descolorado. Trazia também o jeito gaiato de quem é nascida e criada num bairro pobre de Lisboa. Fez-se notar assim que entrou. Esbaforida, gesticulou para a menina sentar-se junto dela. Face à recusa daquela não hesitou evidenciar o “latim” que aprendeu na rua: “Tu também és uma esquisita da cona” ( aqui achei importante reproduzir a dita palavra). A afirmação foi proferida em tom absolutamente possante como se a razão fosse toda sua.
Fiquei em estado de choque. Não estava a acreditar nos meus ouvidos. Depois de uma breve troca de olhares com a senhora do lado não resisti a uma gargalhada. A essa seguiu-se outra e, até ao destino, fui acometida de um ataque de riso intermitente. Acho até que os meus abdominais agradeceram o exercício.
Ciente da asneira e querendo remediar o quadro, a idosa continuou a falar, mas noutro registo. Agora condescendente, acrescentou: “Mais queria ter cem netos do que ter-te a ti. Só as dores de cabeça que me causas...” E continuou numa ladaínha à beira do indecifrável. A criança, alheada dos desabafos da avó - talvez por que os ouve desde sempre - indaga com mel no olhar:
“Compras-me uma história?”
“Não senhora, a menina tem os livros da escola para ler.”
“Mas a professora não marcou trabalhos de casa, avó.”
“Ah não!? Mas que raio de professora é essa? Não entendo estas professoras modernas. Não querem é fazer nenhum.” Ao concluir a frase olha para mim em busca de aprovação. Preferi baixar os olhos porque me faltou coragem de abanar a cabeça em sinal de discordância absoluta.
Astuta, e na expectativa da minha atenção e - quem sabe - simpatia, a idosa resolveu desviar assunto. Virando-se de novo para a miúda, vestiu a capa de educadora a sério e choramingou: “Prometes à avó que nunca mais arrancas os pêlos?” “Eu não arranquei, raspei com a gilete da mãe...” Só então olhei para a criança e notei-lhe ausência de sobrancelhas. Senti de novo vontade de rir. E agora também de chorar. É que a criança era mesmo esquisita. Ela. A avó. E, provavelmente, a família toda. Mas era esquisita dos... Dos cornos, claro. Isto para não me distanciar muito do contexto.
Monday, March 24, 2008
O metro estava apinhado de gente. Problemas de ordem técnica provocaram um atraso significativo e consequente multidão.
“Que chatice...”, pensei contrariada. Estava mesmo com vontade de aproveitar a viagem para ler. Ando agora entretida com o manual do curso de reiki. E, claro, prefiro ler sentada e bem acomodada. Mas logo me lembrei de uma máxima bem a propósito: “apenas por hoje não me vou preocupar”. E, mesmo de pé, embrenhei-me na leitura.
Tão distraída me encontrava a descobrir mais sobre a harmonização das energias vitais quando um senhor já idoso me cede o lugar. Aceitei prontamente julgando-o de saída. E muito surpreendida fiquei quando, duas ou três estações à frente, reparei que ele ainda ali se encontrava. De pé, mesmo ao meu lado. Olhava com serenidade para mim. Perguntei-lhe, então, porque me oferecera o lugar, uma vez que não ia sair. Com a calma e sapiência de quem deixou de ter pressa há muito, explicou: “A menina está a ler. Eu tenho pouco ou nada para fazer. E muito tempo para me sentar...” A resposta apaziguou-me. Tinha tanto amor no olhar que encheu o meu dia de sol. Naquele momento intuí: este homem foi numa das suas vidas passadas o ancião mais sábio e importante de uma casta tribal. Senti ainda que, nessa ou noutra encarnação, as nossas vidas - a dele e a minha - haviam cruzado.
“Que chatice...”, pensei contrariada. Estava mesmo com vontade de aproveitar a viagem para ler. Ando agora entretida com o manual do curso de reiki. E, claro, prefiro ler sentada e bem acomodada. Mas logo me lembrei de uma máxima bem a propósito: “apenas por hoje não me vou preocupar”. E, mesmo de pé, embrenhei-me na leitura.
Tão distraída me encontrava a descobrir mais sobre a harmonização das energias vitais quando um senhor já idoso me cede o lugar. Aceitei prontamente julgando-o de saída. E muito surpreendida fiquei quando, duas ou três estações à frente, reparei que ele ainda ali se encontrava. De pé, mesmo ao meu lado. Olhava com serenidade para mim. Perguntei-lhe, então, porque me oferecera o lugar, uma vez que não ia sair. Com a calma e sapiência de quem deixou de ter pressa há muito, explicou: “A menina está a ler. Eu tenho pouco ou nada para fazer. E muito tempo para me sentar...” A resposta apaziguou-me. Tinha tanto amor no olhar que encheu o meu dia de sol. Naquele momento intuí: este homem foi numa das suas vidas passadas o ancião mais sábio e importante de uma casta tribal. Senti ainda que, nessa ou noutra encarnação, as nossas vidas - a dele e a minha - haviam cruzado.
Monday, February 18, 2008
A fama e o proveito
Parece uma das historiazinhas de “Flagrantes da Vida Real” que costumava ler quando era miúda nas Selecções do Reader’s Digest que o meu pai assinava. Vou de auscultadores a ouvir Dulce Pontes numa vertigem de inexplicável beleza sonora a caminho da estação do Oriente. Estou a passar a cancela de acesso ao metropolitano em plena evasão dos sentidos, quando sou literalmente empurrada para as questões do quotidiano. É alguém que aproveita a minha passagem para entrar também. É um homem ainda jovem apesar do ar gasto e desiludido. Vem mal trajado, traz na mão uma garrafa de vinho de qualidade duvidosa e propaga um odor fétido à sua volta.
Ao precipitar-se sobre mim toca-me nas costas sem intenção, pregando-me um grande susto. Acontece tudo tão de repente que não consigo reprimir o grito. O desconhecido apressa-se numa lenga-lenga de desculpas: “Desculpe lá, menina. Assustei-a? Eu só queria entrar. Entende? Não me leve a mal, por favor…”
Faço que sim com a cabeça, já refeita do pequeno contratempo. A melodia “Amor a Portugal” está a chamar-me de volta. E tenciono prosseguir o caminho sem mais interrupções mas ele continua a explicar-se: “Olhe, ainda no outro dia por causa disto uma velhota começou a gritar que estava a ser assaltada. A mulher não se calava, mesmo depois de perceber que eu só queria passar. Entende? Era toda a gente a olhar para mim de lado. Senti-me mesmo mal, menina. Fiquei tão lixado, tão lixado, que logo a seguir no metro assaltei o marido dela. Já agora, porque não? Assim, tive a fama e o proveito. Ficámos logo conversados.”
Confrontada com o simplismo do argumento, não contive a gargalhada. Apesar de nada legitimar o assalto, por mais enervante que seja - e é - ter fama sem proveito. Por outro lado, duvido muito que tenha sido apenas esse o móbil do crime.
Friday, January 25, 2008
O autógrafo
Um frémito de emoção... Foi o que senti esta manhã no metro. À minha frente estava sentado o alpinista português mais conhecido do momento: João Garcia. Esse mesmo. Aquele que ficou com o nariz parcialmente desfeito e sem a extremidade dos dedos. Aquele que, como tantos outros, arrisca a vida sempre que se aventura numa expedição. Em nome de um objectivo desafiante: ir mais longe. Ir mais longe na escalada da montanha. Ir mais longe fisicamente. Ir mais longe na espiritualidade.
Assim que o metro arranca, um adolescente de look desportivo destaca-se do grupo que o acompanha e dirige-se a João Garcia. De olhos esbugalhados e sorriso rasgado, estende-lhe o caderninho quadriculado e a esferográfica. Por uns segundos, fica suspenso em silêncio num misto de embaraço e excitação até conseguir esboçar duas palavras: “Um autógrafo”. E volta a repetir: “Um autógrafo”. O "se faz favor” não sai. Fica-lhe preso na garganta. Tal é o medo do ridículo aos olhos dos amigos. O medo é injustificado, apetece-me dizer-lhe. Afinal não está a abordar um emergente da ficção televisiva. Trata-se de um herói nacional e, com a humildade de quem escalou os Himalaias e outros gigantes da natureza, retribui o pedido. Com os “côtos” da mãos, o alpinista recebe o caderno e deixa ficar algumas palavras antes de o devolver. Não sei o que escreveu. Mas pressinto uma mensagem bonita.
Ao aceitar o autógrafo, o jovem sorri e faz que sim com a cabeça numa coreografia nervosa e desajeitada. Uma vez mais, a timidez silencia-lhe as palavras. Percebo-lhe a emoção. Também a senti. Sentimos os três.
Sunday, October 07, 2007
Sunday, September 23, 2007
Friday, July 20, 2007
Friday, June 29, 2007
...
Posso não saber vender o peixe, mas não o deixo apodrecer. Acredita. Só preciso do benefício da dúvida. Ou melhor, depois de tanta observação, quero mais do que isso. Afinal, mereço um voto de confiança. Como é possível te deixares enganar pelo meu estilo blazé (escreve-se assim?)? Sou mais atenta e empenhada do que deixo parecer. Acredita. Pára de questionar o meu valor a toda a hora. Dá-me espaço para crescer. E mostrar que sou crescida. Acredita. Acredita para eu poder acreditar. Estou a escassos milímetros de perder a fé... ( tão escassos que cabem no espaço das reticências)...
Posso não saber vender o peixe, mas não o deixo apodrecer. Acredita. Só preciso do benefício da dúvida. Ou melhor, depois de tanta observação, quero mais do que isso. Afinal, mereço um voto de confiança. Como é possível te deixares enganar pelo meu estilo blazé (escreve-se assim?)? Sou mais atenta e empenhada do que deixo parecer. Acredita. Pára de questionar o meu valor a toda a hora. Dá-me espaço para crescer. E mostrar que sou crescida. Acredita. Acredita para eu poder acreditar. Estou a escassos milímetros de perder a fé... ( tão escassos que cabem no espaço das reticências)...
Wednesday, June 20, 2007
Era bem mais simples...
Era bem mais simples se vivessemos com os nossos pais para sempre. Era bem mais simples se ficassemos crianças a vida toda. Era bem mais simples se o cordão umbilical não fosse cortado. Era bem mais simples se nunca tivessemos experimentado a paixão amorosa.
O meu sobrinho Pedro tem quatro anos e sabe isso. Tem a certeza. Quando lhe perguntei um destes dias se tinha namorada, foi peremptório: "Eu não quero ter namorada. Vou viver sempre com o papá e a mamã." Notei-lhe até alguma crítica na inflexão de voz. Do estilo, "não sou como tu, que deixaste a avó e o avô".
Pois é, Pedrinho. Crescer implica fazer escolhas. Crescer implica amar outras pessoas. De outras formas. Crescer implica complicar.
Era bem mais simples se vivessemos com os nossos pais para sempre. Era bem mais simples se ficassemos crianças a vida toda. Era bem mais simples se o cordão umbilical não fosse cortado. Era bem mais simples se nunca tivessemos experimentado a paixão amorosa.
O meu sobrinho Pedro tem quatro anos e sabe isso. Tem a certeza. Quando lhe perguntei um destes dias se tinha namorada, foi peremptório: "Eu não quero ter namorada. Vou viver sempre com o papá e a mamã." Notei-lhe até alguma crítica na inflexão de voz. Do estilo, "não sou como tu, que deixaste a avó e o avô".
Pois é, Pedrinho. Crescer implica fazer escolhas. Crescer implica amar outras pessoas. De outras formas. Crescer implica complicar.
Saturday, June 09, 2007
A humanidade é uma coisa linda na vida da pessoa
A falta de humanidade é uma realidade que me incomoda. Muito mesmo. Nas pessoas, claro. É que há animais que a têm (falo de humanidade,pois!). E homens que nunca hão-de entender o que é. Tive (felizmente, é pretérito) um colega que sofre deste mal. Quando o conheci percebi-lhe logo um certo egoísmo. Achei, no entanto, que era uma forma diferente de interagir. Sobretudo isso, relevei durante algum tempo. Pouco tempo, confesso. Apesar de considerar-me um ser com razoável poder de encaixe.
Na verdade, desculpei-o vezes sem conta. E deixei que as falinhas mansas de um dia cobrissem os gestos malévolos da véspera. Achei que tanto ódio reflectia, apenas, uma grande falta de
amor. Na vida dele, claro. Acreditei que, com paciência, carinho e amizade, o conseguiria "recuperar". Iludi-me algumas vezes. Sempre que lhe vislumbrava sinais de humanidade, logo
percebia que não passava de uma estratégia para fazer-me baixar a cancela. E agredir-me com mais força ainda. Sem dó nem piedade.
Não sou dada a masoquismos. Resolvi anulá-lo da minha existência. Isto depois de perceber o inevitável neste processo: ele estava a sugar-me. A desumanizar-me. Cada dia
mais um bocadinho. Pior, iniciei uma era de profunda tristeza. E nem por isso o sentia mais pessoa humana (perdoem o pleonasmo). Pelo contrário, descobria a cada instante a
dimensão da besta que habitava nele. Um animal odioso e capaz de ataques insidiosos. Feitos com mestria. Grande mestria. Porque toda a sua inteligência estava focada na
malvadez.
Acho que aprendi uma lição. A humanidade vem de dentro. Não a podemos dar a quem não tem.
A falta de humanidade é uma realidade que me incomoda. Muito mesmo. Nas pessoas, claro. É que há animais que a têm (falo de humanidade,pois!). E homens que nunca hão-de entender o que é. Tive (felizmente, é pretérito) um colega que sofre deste mal. Quando o conheci percebi-lhe logo um certo egoísmo. Achei, no entanto, que era uma forma diferente de interagir. Sobretudo isso, relevei durante algum tempo. Pouco tempo, confesso. Apesar de considerar-me um ser com razoável poder de encaixe.
Na verdade, desculpei-o vezes sem conta. E deixei que as falinhas mansas de um dia cobrissem os gestos malévolos da véspera. Achei que tanto ódio reflectia, apenas, uma grande falta de
amor. Na vida dele, claro. Acreditei que, com paciência, carinho e amizade, o conseguiria "recuperar". Iludi-me algumas vezes. Sempre que lhe vislumbrava sinais de humanidade, logo
percebia que não passava de uma estratégia para fazer-me baixar a cancela. E agredir-me com mais força ainda. Sem dó nem piedade.
Não sou dada a masoquismos. Resolvi anulá-lo da minha existência. Isto depois de perceber o inevitável neste processo: ele estava a sugar-me. A desumanizar-me. Cada dia
mais um bocadinho. Pior, iniciei uma era de profunda tristeza. E nem por isso o sentia mais pessoa humana (perdoem o pleonasmo). Pelo contrário, descobria a cada instante a
dimensão da besta que habitava nele. Um animal odioso e capaz de ataques insidiosos. Feitos com mestria. Grande mestria. Porque toda a sua inteligência estava focada na
malvadez.
Acho que aprendi uma lição. A humanidade vem de dentro. Não a podemos dar a quem não tem.
Thursday, May 10, 2007
Não tenho escrito a falar de nós... Hoje apeteceu-me. Apeteceu-me dizer todos os clichés que moram no meu coração. Sabes porquê? Por sentir renovado o meu amor por ti. Por perceber que estás a crescer de alma. Por ter a certeza que és o molusco da minha concha (que é como quem diz o direito do meu avesso, hi,hi,hi ). Por te amar todos os dias um pouco mais.
Monday, April 16, 2007
Não sei se volto a encontrar-te Tatiana. Apenas sei que me tocaste o coração esta manhã. Tu que - por coincidência ou não – sofres, ou julgas sofrer, do coração. Tão pequenina, tão bonita, tão frágil. E tão carente... Foi assim que te encontrei na estação do metro. Ou melhor, foi assim que me encontraste. Estava eu à volta do rímel (aproveito normalmente a viagem para mascarar os traços de sono e cansaço) quando percebi que me observavas com um sorriso embevecido. Sorri-te de volta e continuei a cobrir as pestanas. Nem te considerei muito. Tão empenhada estava nas minhas vaidades.
Até que o metro chegou e fizeste questão de sentar-te ao meu lado. Contrariando assim a tua mãe, que optou pela bancada da ala oposta. Aí sim, percebi que estavas de olho em mim. E antes de chegarmos à estação seguinte, abordaste-me com timidez: “Está muito bonita...” Percebi que também desejavas ficar mais bonita. Quando estava a pôr brilho nos lábios, coloquei um pouco no teu indicador minúsculo para experimentares. Ficaste radiante. Foi quando perguntei como te chamavas e quantos anos tinhas. “Seis”, respondeste como se dissesses dezoito. Tão senhora de ti.
Continuei, entretanto, com o meu ritual de beleza. Mas tu querias atenção. Tocaste-me no braço e com algum embaraço declaraste: “Estou doente. Tenho um dói-dói no coração.” No mesmo instante, levantaste a camisolinha para exibir a bandeira da tua preocupação: uma espécie de penso cheio de fios a sair-te do peito. A “engenhoca”, aparatosa, deixou-me hirta e sem palavras. Pensei logo que a coisa era séria (só depois descobri que o aparelho era uma espécie de teste ambulante para medir os batimentos cardíacos das crianças).
Assim que recuperei o fôlego, perguntei se tinhas dores. Fizeste que não com a cabeça mas acrescentaste que tinhas desmaiado. Foi então que reparei o quão assustada estavas. Disse-te que desmaiar não era nenhum bicho de sete cabeças. Sem, no entanto, conseguir evitar o tom condescentente (perdoa-me a falta de jeito para lidar com a doença). Disse-te ainda que também perdia os sentidos às vezes. Sobretudo, quando estava muito calor. Foi o que me ocorreu dizer. Acho que consegui sossegar-te. Fiquei com essa impressão quando me deste a mãozinha e sorriste apaziaguada. Deixaste-me sem jeito até o final da viagem. Tão sem jeito que quando saímos, na estação terminal, decidi despedir-me e apressar o passo.
Fiz o resto do percurso a pensar em ti. E no teu medo de estar doente. E na tua vontade de partilhar isso com outra pessoa sem ser a tua mãe. Talvez quisesses poupá-la. Talvez tivesses necessidade de ouvir outra opinião. Talvez, e quero acreditar, tivesses visto em mim alguém capaz de acalmar o teu desassossego.
Desejo muito que estejas bem, Tatiana. Um beijinho.
Até que o metro chegou e fizeste questão de sentar-te ao meu lado. Contrariando assim a tua mãe, que optou pela bancada da ala oposta. Aí sim, percebi que estavas de olho em mim. E antes de chegarmos à estação seguinte, abordaste-me com timidez: “Está muito bonita...” Percebi que também desejavas ficar mais bonita. Quando estava a pôr brilho nos lábios, coloquei um pouco no teu indicador minúsculo para experimentares. Ficaste radiante. Foi quando perguntei como te chamavas e quantos anos tinhas. “Seis”, respondeste como se dissesses dezoito. Tão senhora de ti.
Continuei, entretanto, com o meu ritual de beleza. Mas tu querias atenção. Tocaste-me no braço e com algum embaraço declaraste: “Estou doente. Tenho um dói-dói no coração.” No mesmo instante, levantaste a camisolinha para exibir a bandeira da tua preocupação: uma espécie de penso cheio de fios a sair-te do peito. A “engenhoca”, aparatosa, deixou-me hirta e sem palavras. Pensei logo que a coisa era séria (só depois descobri que o aparelho era uma espécie de teste ambulante para medir os batimentos cardíacos das crianças).
Assim que recuperei o fôlego, perguntei se tinhas dores. Fizeste que não com a cabeça mas acrescentaste que tinhas desmaiado. Foi então que reparei o quão assustada estavas. Disse-te que desmaiar não era nenhum bicho de sete cabeças. Sem, no entanto, conseguir evitar o tom condescentente (perdoa-me a falta de jeito para lidar com a doença). Disse-te ainda que também perdia os sentidos às vezes. Sobretudo, quando estava muito calor. Foi o que me ocorreu dizer. Acho que consegui sossegar-te. Fiquei com essa impressão quando me deste a mãozinha e sorriste apaziaguada. Deixaste-me sem jeito até o final da viagem. Tão sem jeito que quando saímos, na estação terminal, decidi despedir-me e apressar o passo.
Fiz o resto do percurso a pensar em ti. E no teu medo de estar doente. E na tua vontade de partilhar isso com outra pessoa sem ser a tua mãe. Talvez quisesses poupá-la. Talvez tivesses necessidade de ouvir outra opinião. Talvez, e quero acreditar, tivesses visto em mim alguém capaz de acalmar o teu desassossego.
Desejo muito que estejas bem, Tatiana. Um beijinho.
Friday, March 30, 2007
Deixa-me ser eu
Não me faças dizer o que queres ouvir. Deixa-me falar as palavras que sinto. Ou sentir as palavras que falo. Dá espaço à minha autenticidade. Não me apetece ir por este ou aquele caminho simplesmente porque me levas pela mão. Preciso descobrir a direcção que me apetece seguir. Tenho de encontrá-la no meu coração. Entendes?
Não pretendo ser o objecto dos teus sonhos e dos meus pesadelos. Quero perceber se os teus sonhos caminham ao lado dos meus. Se coincidem. Ou colidem. E até que ponto podemos geri-los. Sem constrangimento nem dor para nenhuma das partes.
Desculpa a honestidade.
Preciso de tempo para assimilar o que se passa. Não vou dizer sim só para não te perder. E se digo sim e me perco eu? Tenho medo de descobrir um dia que sou uma personagem. Criada pelos teus caprichos. E os meus, onde ficam? Já pensaste que os oculto muitas vezes? Porque não sou capaz de ferir-te. E porque o amor que te sinto os torna quase dispensáveis. E até ridículos.
Não me faças erguer uma muralha à nossa volta. Ela pode ficar tão alta. E eu deixar de ver-te.
Não me faças dizer o que queres ouvir. Deixa-me falar as palavras que sinto. Ou sentir as palavras que falo. Dá espaço à minha autenticidade. Não me apetece ir por este ou aquele caminho simplesmente porque me levas pela mão. Preciso descobrir a direcção que me apetece seguir. Tenho de encontrá-la no meu coração. Entendes?
Não pretendo ser o objecto dos teus sonhos e dos meus pesadelos. Quero perceber se os teus sonhos caminham ao lado dos meus. Se coincidem. Ou colidem. E até que ponto podemos geri-los. Sem constrangimento nem dor para nenhuma das partes.
Desculpa a honestidade.
Preciso de tempo para assimilar o que se passa. Não vou dizer sim só para não te perder. E se digo sim e me perco eu? Tenho medo de descobrir um dia que sou uma personagem. Criada pelos teus caprichos. E os meus, onde ficam? Já pensaste que os oculto muitas vezes? Porque não sou capaz de ferir-te. E porque o amor que te sinto os torna quase dispensáveis. E até ridículos.
Não me faças erguer uma muralha à nossa volta. Ela pode ficar tão alta. E eu deixar de ver-te.
Friday, March 23, 2007
Que coisa!!!!!!
Eu não sou racista. Nem xenófoba. Mas já não suporto a abordagem das ciganas romenas. Parece uma peste. Alastra-se por tudo o que é sítio. A cada esquina por onde passo lá está um exemplar desta triste figura. Com ar andrajoso e ladaínha perturbante. Tal e qual uma hiena a chorar. Ou a rir. Nem sei bem. É tão enervante que em vez de me comover desperta-me raiva e aversão. Que Deus me perdoe. Mas é de facto o que sinto.
No metro, é raro o dia em que não entra uma com o recém-nascido (dela ou emprestado) a tiracolo e quase não descola. Para arredar não basta fazermos cara feia. Temos que dizer numa inflexão arrogante que não lhes vamos dar nada.
Também pelas ruas da baixa não é raro aquela que nos impinge pensos rápidos a pretexto de uma moeda. Com a reza habitual. Parece que frequentaram todas a mesma catequese. Sei lá.
Pior ainda, junto aos semáforos (onde aparecem normalmente aos pares) mandam-nos água com sabão para cima do pára-brisas. Para além de nos deixarem o automóvel gorduroso, ainda exigem pagamento pelo mau serviço prestado. Isto depois de termos explicado com as três letras que NÃO. Que não estávamos interessados na dita “lavagem”.
Às vezes, apetece bater-lhes. Até mais não.
Que povo mais sem orgulho! Não querendo estereotipar, obviamente.
Eu não sou racista. Nem xenófoba. Mas já não suporto a abordagem das ciganas romenas. Parece uma peste. Alastra-se por tudo o que é sítio. A cada esquina por onde passo lá está um exemplar desta triste figura. Com ar andrajoso e ladaínha perturbante. Tal e qual uma hiena a chorar. Ou a rir. Nem sei bem. É tão enervante que em vez de me comover desperta-me raiva e aversão. Que Deus me perdoe. Mas é de facto o que sinto.
No metro, é raro o dia em que não entra uma com o recém-nascido (dela ou emprestado) a tiracolo e quase não descola. Para arredar não basta fazermos cara feia. Temos que dizer numa inflexão arrogante que não lhes vamos dar nada.
Também pelas ruas da baixa não é raro aquela que nos impinge pensos rápidos a pretexto de uma moeda. Com a reza habitual. Parece que frequentaram todas a mesma catequese. Sei lá.
Pior ainda, junto aos semáforos (onde aparecem normalmente aos pares) mandam-nos água com sabão para cima do pára-brisas. Para além de nos deixarem o automóvel gorduroso, ainda exigem pagamento pelo mau serviço prestado. Isto depois de termos explicado com as três letras que NÃO. Que não estávamos interessados na dita “lavagem”.
Às vezes, apetece bater-lhes. Até mais não.
Que povo mais sem orgulho! Não querendo estereotipar, obviamente.
Wednesday, March 21, 2007
Sinto que está na hora de esclarecer quem me visita. Os textos que aqui tenho nem sempre são o espelho da minha alma. Pelo menos, do estado de alma no momento que escrevo.
Nem sempre ilustro a realidade que estou a experienciar. Muitas vezes, assumo emoções “emprestadas”. Dos amigos, amigas e pessoas que vou conhecendo. Claro que não falo do que não sei. Claro que as lágrimas e os sorrisos de que falo também são ou foram meus. Em contextos idênticos ou distintos dos que aqui exponho.
Escrevo sempre na primeira pessoa. Assim comungo melhor da situação. Assim, visto-a plenamente. Assim ponho o coração nas palavras. Mas longe de mim ludibriar-vos. Nem sempre sou eu a despir-me...
Nem sempre ilustro a realidade que estou a experienciar. Muitas vezes, assumo emoções “emprestadas”. Dos amigos, amigas e pessoas que vou conhecendo. Claro que não falo do que não sei. Claro que as lágrimas e os sorrisos de que falo também são ou foram meus. Em contextos idênticos ou distintos dos que aqui exponho.
Escrevo sempre na primeira pessoa. Assim comungo melhor da situação. Assim, visto-a plenamente. Assim ponho o coração nas palavras. Mas longe de mim ludibriar-vos. Nem sempre sou eu a despir-me...
Friday, March 16, 2007
Nunca mais escrevi. Escrever é confrontar-me comigo. Com as minhas “verdades”. Talvez por isso, não me tem apetecido escrever. Percebo pouco de psicanálise, mas a experiência diz-me que às vezes mais vale deixar as emoções sossegadas. No canto delas. Não digo adormecidas. Mas arrumadas. Assim, umas não interferem nas outras...
Tuesday, March 06, 2007
Não deixes morrer o amor-perfeito
Tenho uma coisa para dizer-te. A minha plantinha não é sintética, amor. Tal como a tua, precisa de cuidados regulares. Se te esqueces disso, ela sucumbe.
Por estes dias, não a tens regado. Ela está sedenta. Nem a tens mimado. Ela está desnorteada. Não tens olhado para ela. Está moribunda.
Tenho uma coisa para dizer-te. A minha plantinha não é sintética, amor. Tal como a tua, precisa de cuidados regulares. Se te esqueces disso, ela sucumbe.
Por estes dias, não a tens regado. Ela está sedenta. Nem a tens mimado. Ela está desnorteada. Não tens olhado para ela. Está moribunda.
Monday, February 12, 2007
Suficientemente feliz
“És feliz?” perguntas-me hoje. “Sou, sou suficientemente feliz”, respondo logo. Depressa. Temendo que a hesitação me atraiçoe. Temendo que me leias o tom de voz. Temendo que me adivinhes tremendamente triste. E concluas que o nosso amor não chega para me fazer feliz. Ou que o nosso amor me deixa neste estado letárgico de tristeza. Hoje não sei responder com toda a verdade a essa pergunta. Hoje até uma parte da verdade me escapa. Não sei, amor. Acho que suficientemente feliz até não é mau. Já me senti pior. E já quase me esqueci de algum dia me ter sentido melhor. Não sei bem em que lugar me encontro na escala da felicidade. Nunca pensei muito sobre isso. Se calhar prefiro nem saber. Mais vale deixar a ferida sarar ao invés de tirar-lhe a crosta. Ou então (quem sabe?) fazer outro curativo...
Mas tu insistes. “Porque deixaste de falar comigo?” Desfaço em muitos bocados um lenço de papel, enquanto penso numa resposta que fira menos os teus sentidos. Nada do que me ocorre se afigura adequado. Que devo responder-te? Que se me calaram as palavras. Que já não tenho coisas bonitas para dizer-te. Que - acredita - não queres ouvir o que tenho para falar. Que se falar não vou calar-me durante muito tempo. Que afinal são tantas as palavras que tenho para dizer. E dizer-te. Tantas. Atabalhoadas de tantas.
Impaciente com o meu silêncio, voltas à carga: “Antes contavas-me tudo...” É verdade, houve tempos em que simplesmente vomitava palavras. A maior parte das vezes sem as filtrar. Sem as pensar. Era tal a incontinência que falava por cima dos restantes interlocutores. Tu não eras excepção. Tão obstinada estava em despejar ideias que mal te escutava. E quando o fazia era sempre à procura de mote para a minha ladaínha.
Até que houve um dia que me chamaste à atenção. Lembras-te? Disseste-me que não te ouvia? Que nem olhava nos teus olhos quando falavas? Tinhas razão, amor. Toda a razão, concluí, depois de uma breve intro e retrospectiva. Jurei então - a ti e a mim - que ia mudar. Que ia passar a escutar-te. E a escutar-me. E, por isso, a falar menos. Ou melhor, a dizer menos palavras. Nem que tivesse de tomar ansiolíticos para acalmar tamanha verborreia. Não foi preciso recorrer a tais métodos. Aos poucos, aprendi simplesmente a descentralizar o meu mundo. A expandir para fora do umbigo. A olhar à volta. Devo isso a ti, amor. É verdade. Ensinaste-me a olhar à volta. A sair da minha concha de egoísmo e vaidade.
E porque os teus olhos insistem numa explicação, concedo: “Falava muito mas dizia pouco. Na verdade, foram muitas as palavras que reprimi... Mesmo no tempo em que não me calava. Falava, falava, falava. Para ocultar o medo de falar. Entendes?” Olhas-me surpreendido. Como se me visses pela primeira vez. Como se, de repente, me descobrisses estranha. Vou ao encontro da tua expressão incrédula e, com um abraço, peço que me deixes em paz. Que não ouses despir-me a alma.
O que me apetece mesmo é chorar. Em alta voz. Chorar simplesmente. Chorar como uma criança que se perdeu dos pais e assustou-se. Chorar o choro perdido. Chorar o medo de perder-te. Urge saber se estamos a tempo de salvar o diálogo. E o amor. Não digo nada. Não sou capaz. Invade-me uma amnésia de palavras. Como te amo! Por que deixámos crescer o fosso entre nós? Faz-me recuperar a memória do tempo em que amávamos como se não houvesse outro dia. Lembras-te de quando nos sentíamos capazes de tocar o céu? Quando achávamos que ia ser para sempre. Que o encantamento era eterno. E ai de quem se atrevesse a questionar o rosa da atmosfera. Como nos bastavamos! O resto era acessório. Mesmo quando não era.
Entre a divagação e o saudosismo, deixo escapar: “Não quero perder-te...” E porque em ti os olhos brilham e o rosto sorri, fico com a certeza da reciprocidade do amor. E percebo no mesmo instante o quanto sou feliz. Mais do que o suficiente.
“És feliz?” perguntas-me hoje. “Sou, sou suficientemente feliz”, respondo logo. Depressa. Temendo que a hesitação me atraiçoe. Temendo que me leias o tom de voz. Temendo que me adivinhes tremendamente triste. E concluas que o nosso amor não chega para me fazer feliz. Ou que o nosso amor me deixa neste estado letárgico de tristeza. Hoje não sei responder com toda a verdade a essa pergunta. Hoje até uma parte da verdade me escapa. Não sei, amor. Acho que suficientemente feliz até não é mau. Já me senti pior. E já quase me esqueci de algum dia me ter sentido melhor. Não sei bem em que lugar me encontro na escala da felicidade. Nunca pensei muito sobre isso. Se calhar prefiro nem saber. Mais vale deixar a ferida sarar ao invés de tirar-lhe a crosta. Ou então (quem sabe?) fazer outro curativo...
Mas tu insistes. “Porque deixaste de falar comigo?” Desfaço em muitos bocados um lenço de papel, enquanto penso numa resposta que fira menos os teus sentidos. Nada do que me ocorre se afigura adequado. Que devo responder-te? Que se me calaram as palavras. Que já não tenho coisas bonitas para dizer-te. Que - acredita - não queres ouvir o que tenho para falar. Que se falar não vou calar-me durante muito tempo. Que afinal são tantas as palavras que tenho para dizer. E dizer-te. Tantas. Atabalhoadas de tantas.
Impaciente com o meu silêncio, voltas à carga: “Antes contavas-me tudo...” É verdade, houve tempos em que simplesmente vomitava palavras. A maior parte das vezes sem as filtrar. Sem as pensar. Era tal a incontinência que falava por cima dos restantes interlocutores. Tu não eras excepção. Tão obstinada estava em despejar ideias que mal te escutava. E quando o fazia era sempre à procura de mote para a minha ladaínha.
Até que houve um dia que me chamaste à atenção. Lembras-te? Disseste-me que não te ouvia? Que nem olhava nos teus olhos quando falavas? Tinhas razão, amor. Toda a razão, concluí, depois de uma breve intro e retrospectiva. Jurei então - a ti e a mim - que ia mudar. Que ia passar a escutar-te. E a escutar-me. E, por isso, a falar menos. Ou melhor, a dizer menos palavras. Nem que tivesse de tomar ansiolíticos para acalmar tamanha verborreia. Não foi preciso recorrer a tais métodos. Aos poucos, aprendi simplesmente a descentralizar o meu mundo. A expandir para fora do umbigo. A olhar à volta. Devo isso a ti, amor. É verdade. Ensinaste-me a olhar à volta. A sair da minha concha de egoísmo e vaidade.
E porque os teus olhos insistem numa explicação, concedo: “Falava muito mas dizia pouco. Na verdade, foram muitas as palavras que reprimi... Mesmo no tempo em que não me calava. Falava, falava, falava. Para ocultar o medo de falar. Entendes?” Olhas-me surpreendido. Como se me visses pela primeira vez. Como se, de repente, me descobrisses estranha. Vou ao encontro da tua expressão incrédula e, com um abraço, peço que me deixes em paz. Que não ouses despir-me a alma.
O que me apetece mesmo é chorar. Em alta voz. Chorar simplesmente. Chorar como uma criança que se perdeu dos pais e assustou-se. Chorar o choro perdido. Chorar o medo de perder-te. Urge saber se estamos a tempo de salvar o diálogo. E o amor. Não digo nada. Não sou capaz. Invade-me uma amnésia de palavras. Como te amo! Por que deixámos crescer o fosso entre nós? Faz-me recuperar a memória do tempo em que amávamos como se não houvesse outro dia. Lembras-te de quando nos sentíamos capazes de tocar o céu? Quando achávamos que ia ser para sempre. Que o encantamento era eterno. E ai de quem se atrevesse a questionar o rosa da atmosfera. Como nos bastavamos! O resto era acessório. Mesmo quando não era.
Entre a divagação e o saudosismo, deixo escapar: “Não quero perder-te...” E porque em ti os olhos brilham e o rosto sorri, fico com a certeza da reciprocidade do amor. E percebo no mesmo instante o quanto sou feliz. Mais do que o suficiente.
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