Wednesday, July 15, 2009
As desculpas genéticas irritam-me solenemente. Estava precisamente a falar disso com uns amigos outro dia. A propósito de alguém culpar os genes pelos quilos que ganhou a mais. “A mãe também é generosa de formas, para não dizer, muito generosa…”, justificava assim uma das presentes.” “Não me venham com tretas. E o fast food, os gelados com chantily, as noites de copos não contam?”, retorqui de imediato.
A discussão continuou... Mas passou a outro protagonista. Este não tem problemas de peso. Ou melhor, de excesso de peso. É mais de falta dele. Tudo devido ao consumo abusivo de cocaína. “Agora não me venham justificar o comportamento aditivo com o facto do pai fumar... “, avisei logo. Antes que a conversa metesse nojo. Mesmo assim, houve quem entendesse interceder e justificar. Não a “favor” da genética, mas da educação. “Coitado, o pai é uma figura de Estado e nunca teve tempo para ele. O rapaz passou a infância enclausurado num colégio interno.” Se teve educação é porque teve. Se não teve é porque não teve. Enfim…Quem somos nós para aferir as razões que levam alguém a engordar ou a tomar drogas? Um dos interlocutores, a páginas tantas, depois de ouvir argumentos e contra-argumentos daqui e dali, resolve sacudir a discussão: "Nós somos 12 irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Lá em casa fomos todos tratados e educados da mesma maneira. Eu dei em paneleiro, tenho um irmão drogado, uma irmã puta e outra cabeleireira." Fez-se silêncio por breves segundos. Logo a seguir, rebentámos numa risada. E voltou a fazer-se silêncio. Cada um com as suas ilações… Realmente! Quem somos nós para discorrer sobre o que não sabemos?
Thursday, June 25, 2009
God is gay. Uma heresia. Mas espelha na perfeição o deslumbramento que senti... Nunca tinha visto tanto homem lindo por centímetro quadrado. A sério. Estive em Paris para um casting e, por mero acaso, fui atraída para uma festa sui generis. Ia a passear com os meus colegas depois do jantar. Procurávamos um bar simpático para tomar vinho e desfrutar da atmosfera nocturna da cidade da luz. No caminho, esbarrámos num quarteirão imponente com jardim, de onde saíam ondas de animação e glamour. É ali que queremos estar. A certeza foi tão imediata quanto unânime. Fomos, então, de penetras ao club-sandwich, no edifício Pierre Cardin. Depois de pagarmos 25 euros cada um. Assim que passámos o portão, deparámo-nos com uma autêntica fonte de tesão sonoro e visual. A música era sexy e os convivas soberbos. Era uma festa gay topo de gama. Creme de la creme. Manequins, actores, cineastas, criadores de moda. Enfim... Entre bebericar champanhe, dançar e disparatar, não conseguimos evitar de espantar para algumas criaturas. Homens sobretudo, mas também mulheres, de estética arrojada. Demos de caras com o estilista Mark Jacobs, a ex-namorada da Lindsay Lohan, o manequim Jacomossi e outros tantos cujos nomes me escapam. Eu, que sou despudorada, senti-me uma verdadeira colegial. Faltavam-me 15 centímetros de salto. Inadmissível nesta festa. Até porque os reis da noite os tinham. Vi homens lindos, de corpos esculpidos, de calções rasgados e brutos stiletos. Uma inquietação. "Mon Dieu, faz-me gay!", pensei vezes sem conta...
Sunday, April 26, 2009
As desculpas não fazem delite
Há atitudes que não se justificam. Mas podem enquadrar-se. No sábado, eu e o meu namorado fomos jantar com dois amigos. Tudo indiciava uma noite agradável, apesar da chuva intermitente. Fomos ao Bocca e comemos que nem abades. Na verdade, que nem abades com pouco apetite. Já que a nouvelle cuisine não se compadece de estômagos toscos como os nossos. Mas deparámo-nos com um maravilhoso menu degustativo. Das entradas de vieiras com trufas e caviar aos pratos de bodião com lapas, ao atum tekaki, sem esquecer o pudim de ricota acompanhado de sorvete de manjericão... Tudo regado de um encorpado tinto do Douro. Acabado o jantar e ainda por acabar a conversa, fomos até o Lux. Como estávamos todos numa de serão ligeiro continuámos no vinho. Ficámos junto ao bar e - entre um copo, um fait divers e uma gargalhada - se fez o convívio. Entretanto, descobri que o barman preparava uma bebida decorada com rodelas de pepino. Pedi-lhe uma e gracejei com o grupo, colocando-a nos olhos em jeito de máscara cosmética. Péssima ideia. Esquecera-me do rímel e do eyeliner que de repente me vieram à memória quando vi a cara de horror do meu namorado. Intuí logo o borrão. Antes de correr para a casa de banho atirei, sem pensar duas vezes, a rodela de pepino. Que foi aterrar junto ao peito do empregado. Bastou uma fracção de segundos para me arrepender do gesto. Mas já não o podia suspender. Depois de me retocar, voltei ao bar decidida a desculpar-me. Protagonismo que me foi tirado pelo barman. Antes de me deixar falar, repreendeu-me. Assumi a culpa e pedi mil perdões pela atitude infantilóide. Mas a diversão ficou por ali. Assim como a vontade de ali estar. Senti-me triste e bastante envergonhada.
De volta a casa, e a propósito de atitudes irreflectidas, lembrei-me do Pepe, o jogador que está na berlinda por ter agredido ao pontapé um adversário em pleno jogo. Não sei o que se passou na cabeça dele. Nada justifica a violência, mas recuso-me a crucificá-lo... Por detrás ou ao lado do gesto, há sempre um contexto. Há atitudes que não se justificam. Mas podem enquadrar-se. Pior do que o repúdio de quem testemunhou o episódio, pior do que o castigo das entidades reguladoras e pior do que tudo é a severa auto-censura. O rapaz está com certeza arrependido do que fez. E, se não sabia, ficou a saber que as desculpas não fazem rewind. Nem delite.
Thursday, March 19, 2009
Thursday, February 05, 2009
O coração dele dispara quando na final do curso de manequins é escolhido para o trabalho. O único entre algumas dezenas de candidatos. Tem 17 anos e muitos sonhos. Aquele é o pontapé de saída de uma carreira que, acreditava, seria de muito sucesso. A primeiríssima contratação.
Não cabendo em si de expectativa, vai à prova de roupa no dia seguinte. Chega pela boleia do pai, que fica à espera à porta do local marcado.
A pessoa que o recebe orienta-o para uma sala pequena onde deverá vestir-se. Lá, apenas encontra um fato de coelho. Ainda sem perceber o que se passa, indaga sobre o paradeiro dos coordenados. A resposta vem num embrulho de desprezo:
- A roupa é essa que aí está.
- Ah... Julguei que ia fazer prova para um desfile. Quando me falaram da Fil...
- É um desfile. Vais “passar” o Quicky. E é para a Fil Alimentar.
Fica devastado. Sem palavras. E sem “jogo de cintura” para disfarçar a decepção. Inquieto, baralha-se com as patas do animal. Sob o olhar frio e atento da produtora. Troca os braços pelas pernas e vice-versa. Uma. Outra. E outra vez. Aqueles breves momentos sabem a eternidade.
Feita a prova e acertados os detalhes, apressa-se nas despedidas, tal a vontade de fugir. E de chorar. De volta ao carro do pai, omite o que se passa. Disfarça com aparente entusiasmo.
Passaram-se alguns anos, e o meu amigo, num contexto de copos e boa disposição, confidencia o seu primeiro casting. O grupo ri muito. Ele mais ainda. Mesmo assim, uma de nós vai em seu auxílio: “Ao menos estavas disfarçado. Ninguém sabia que eras tu...” Ao que ele, depois de soltar uma gargalhada ainda mais sonora, remata: “Aí é que te enganas. A boca do coelho era a minha cara. E estava toda de fora...”
Friday, January 30, 2009
Está a dar-me um ataque de amor. Neste preciso momento. Avassalador. Daqueles incontroláveis. De tal forma que não cabe em mim. Tal a urgência de o partilhar. Não apenas com o amor da minha vida. Mas com toda a gente.
Há que dizer o amor. Como se dizem as outras coisas. Sem pruridos. Ou com eles. Com figuras de estilo. Ou sem elas. Conforme as ganas da pessoa. Há que dizê-lo tantas as vezes que apetecer. Sobretudo se é gigante e não cabe todo dentro de nós.
Há que dizer o amor. As palavras são ambíguas e não dizem da sua verdade. Mas sugerem-na. As palavras são pequenas e não medem a sua grandeza. Mas aliviam o peso de o carregar sozinha. Isso sossega-me. Bastante.
Thursday, November 20, 2008
Enquanto lanchávamos, a Maria confidenciou-me as regras que orientaram (ou desorientaram a sua vida nos últimos meses. “Deixei de fazer perguntas. Mesmo que a intenção fosse meramente trivial. Não queria que o meu interesse se confundisse com desconfiança ou curiosidade desnecessária. Deixei de opinar. Por perceber que as minhas opiniões pouco importavam. Ou apenas importavam quando iam ao encontro das dele. Deixei de queixar-me. Por entender que afectava a atmosfera de boa energia que desejávamos. Deixei de conversar. Por recear perguntar, opinar ou queixar-me. Deixei de dormir. Porque as perguntas, as respostas e as declarações que reprimi passaram a atormentar-me quase todas as noites...”
“Meu Deus, Maria! E agora, o que vais fazer?”
“Não sei bem. Ando à procura do meu Ego. Entendes?” E , com um sorriso maroto, a contrastar com a atmosfera, ironiza: “Perdi o norte. E o sul também...”
Estava ainda a assimilar a informação e a procurar propiciar-lhe algum conforto, quando a minha amiga conclui o desabafo: “Para já, vou tratar dos papéis do divórcio. É estranho. A ideia era ser a mulher dos sonhos dele. Em vez disso, ele tornou-se o homem dos meus pesadelos.”
Wednesday, November 12, 2008
De visita à família, acompanhei um pouco a rotina de um dos meus sobrinhos: o Pedro. Ele tem seis anos, frequenta o primeiro ano e sai da escolinha todos os dias às 16 horas. Como os pais estão a trabalhar, quem o vai buscar é a minha mãe. No dia que cheguei, fui com ela.
Ao toque de saída, lá vinha ele todo saltitão com um bando de meninos e meninas à volta. Quase todos a chamar-lhe pelo nome. "O puto tem carisma", intuí com orgulho de tia.
Assim que nos vê, corre para a avó, dá-lhe um beijo gigantesco e pede autorização para jogar à bola. “São só dez minutos”, justifica de vozinha melada. E, antes de esperar pela resposta, segue cheio de confiança com os amiguinhos.
Acabado o jogo, seguimos para casa dos meus pais. Estávamos a lanchar quando o meu irmão chegou. Ninguém o esperava tão cedo. Conseguira escapulir-se. O Pedro não queria acreditar... Os seus olhos brilharam de excitação:
- "Que bom que chegaste, papá. Já tinha tantas saudades tuas!"
- "Quantas saudades?"
- "Muitas, muitas, muitas. Do fundo das letras ao fundo do espaço."
- "Como assim Pedro? Antes dizias que era do fundo do mar ao fundo do espaço. O que é que mudou?"
- "O mar tem fim, papá. E as letras são infinitas."
Poesia pura. Os meus ouvidos deleitaram-se. O meu coração esparramou-se de ternura. A propósito, repesquei na memória a incontornável frase de Caetano Veloso: "Nem que eu bebesse o mar encheria o que tenho de fundo..."
Tuesday, November 11, 2008
Eulália era pequenina, espevitada e gulosa. Era também inocente. Como são, aliás, todas as crianças com seis ou sete anos. Um certo dia, uma prima da mãe - proprietária da mercearia mais conhecida da aldeia - lança-lhe o desafio: “se disseres à tua professora “vai p’ó caralho” ofereço-te este boião cheio com os teus rebuçados preferidos”. Ela fica num reboliço. Até saliva, em reflexo condicionado. Mas - embora desconheceça o teor da expressão - pressente tratar-se de uma proposta indecente. Ou pelo menos pouco decente. Advinha-lhe de imediato o tom maroto. Daí não a ter acatado logo.
Deixa-a “na gaveta” por uns dias. Até uma manhã em que se sente contrariada pela educadora e deixa escapar: “Vá p’ó caralho.” Atónita, a professora chama-a ao canto da sala e prega-lhe com afinco dez reguadas em cada mão. O castigo deixa-a num choro convulsivo. Mais tarde, quando a mãe a vai buscar à escola, encontra-a ainda desfigurada. Quando a questiona sobre o sucedido, a pequena exibe o estado deplorável das mãozinhas e rebenta de novo num pranto. O ardor que ainda sente, a mágoa pela agressão que sofrera e o receio de nova reprimenda adiam as explicações por uns minutos. Mas, sob insistência e à medida que se acalma, relata toda a história.
Ainda sem querer acreditar, a mãe corre ao estabelecimento da prima. A discussão é de tal ordem que não resta espaço para mais nada. Apenas para uma grande zanga. Os rebuçados, esses, continuam nos frascos, empoleirados no balcão da mercearia. A menina entretanto cresce e com ela cresce também a mágoa pelo incumprimento da promessa feita.
Já adolescente, ela, a irmã e os pais mudam-se de malas e bagagens para a Capital. E é dentro do táxi que os leva até o combóio, que avista ao fundo da rua um vulto a aproximar-se. É a prima Gertrudes que, embora pesada e a sofrer das articulações – corre a uma velocidade nunca antes vista. Traz com ela um embrulho debaixo do braço que - mesmo antes do veículo arrancar - estende a Eulália. E, num soluço emocionado, explica: “Estes são os rebuçados que te prometi há uns aninhos atrás. Perdoa-me.”
Tuesday, October 21, 2008
Thursday, October 16, 2008
Ufa! O Gonçalo nasceu. Fruto de muito amor, determinação e fé. E também da valentia e coragem da mamã: a minha amiga Gi.
Uns dias antes, os médicos disseram-lhe com as letras todas: “corres risco de vida no parto”. Mas estas letras são as minhas. Já que as letras ditas foram outras. Menos figuradas. Mais desumanas. As letras ditas nem pretendiam ser dissuasoras da gravidez. Já era tarde demais para isso. Foram ditas às trinta e duas semanas de gestação. Foram ditas na eminência de vida do bebé.
Durante algum tempo acreditou-se que a minha amiga Gi não podia ser mãe. “É cientificamente improvável”, disseram-lhe os médicos. Os mesmos que a felicitaram pelo milagre da gravidez. Os mesmos que a pouco tempo do parto a condenaram. E semearam uma onda de angústia à sua volta.
A notícia da impossibilidade de engravidar caíu que nem uma bomba na vida da Gi. Das potentes. Ela, que desde adolescente sonhara casar de véu e grinalda e constituir família. Ela, cujos olhos brilhavam sempre que via uma criança. Ela, que não continha as lágrimas sempre que o tema maternidade vinha à conversa.
Quando o impacto da bomba se reduzia a uma ligeira poeira, eis que cai outra bomba. Esta de outro alcance. Afinal, a minha amiga – de cirurgia marcada para extrair miomas, útero e companhia – estava gravidíssima. No meio científico ninguém percebia como. Houve dúvidas e, sobretudo, receios.
A decisão de deixar o processo seguir não abraçou consensos. Foram meses difíceis, feitos de internamentos, repousos absolutos, esperanças e desesperos. Chegou a equacionar-se o desfecho mais trágico. Mas a Gi acreditou no sonho. E lutou por ele.
Parabéns, mamã.
Tuesday, September 23, 2008
Monday, September 15, 2008
Nos filmes de ficção científica é comum o extra-terrestre incorporar a vítima, assumindo o seu aspecto. A ideia é ludibriar as próximas vítimas...
As pessoas de fraca personalidade ou baixo índice de auto-estima tendem a fazer o mesmo. Ou algo parecido. Assumem gradualmente o esterótipo da sua “musa”. Em pouco tempo de convivência passam a falar, vestir e estar como a pessoa que admiram. Ou de quem têm inveja (que é uma espécie de admiração não assumida).
Há até os que vão ao pormenor de “vestir” os tiques e trejeitos mais singulares, chegando a embrenhar-se de tal forma na transferência de personalidade que se esquecem da noção de ridículo. A identificação é, por vezes, tão abrangente que há quem se convença ser mais autêntico do que o original. Pior ainda é quando estas carapaças de ocasião usurpam a alma da sua figura de referência.
Monday, July 28, 2008
Esta manhã conheci Yasmina. Uma menina com três meses de idade, cara de anúncio Cerelac e sem vontade de sorrir.
Vinha ao colo do pai, um jovem emigrante de leste, ainda imberbe. Parecia irmão dela. E cioso da preciosidade que embalava, ao contrário da bebé, vinha de rosto aberto. Mostrava uma expressão cheia de vaidade, ternura e dentes estragados. Não parava de brincar com Yasmina. Sempre na expectativa de abrir um sorriso naquela boquinha fechada. Mas não foi bem sucedido. Pelo menos no tempo em que os observei.
Cheguei a sentir-me inquieta. Tudo divergia nestes dois seres. O ar gaiato no rosto do jovem que mal teve tempo de ser criança. Os lábios hirtos da menina que ainda só devia ter razões para sorrir.
A beleza imaculada no rostinho rosado de porcelana dela. O semblante enxovalhado dele. E as mãos típicas de quem conhece a dureza do trabalho. Sujas, maltratadas e grosseiras.
O contraste era grotesco.
Monday, June 23, 2008
É incrível o número de casais de meia idade que encontro na rua. Quase todos – sobretudo os de clásse média e média baixa – convergem numa particularidade: o elemento masculino caminha cerca de um metro à frente. Não vão de mãos dadas. Não vão abraçados. Nem sequer vão lado a lado. Ela até por vezes dá uma espécie de corridinha intercalada para poder acompanhá-lo. Mas logo, logo, ele volta a destacar-se e assume a dianteira. Como que a deixar bem claro: “Calma aí, nada de confianças. Vamos juntos mas separados.”
Ainda hoje num raio de meio quilómetro observei esta espécie de coreografia em três pares distintos. Que coisa! Juntos. Mas separados.
Um quadro ilustrativo do nacional machismo. Mas por que se adianta ele aqueles centímetros? Pretende abrir alas para a mulher passar? Quer fazer-se passar por “single”? A mulher causa-lhe embaraço? Ou, simplesmente, está farto de a aturar?
Seja qual for a motivação, é triste. É triste ver de fora. Ainda mais triste deve ser sentir por dentro.
Tuesday, June 17, 2008
“Santa Maria Mãe de Deus!” O piropo mais simpático que um desconhecido me dirigiu. E tenho ouvido muitos por estes dias. Não por ser irresistível mas porque ao lado da minha casa está a ser concluída uma mega obra de construção. Se é que me faço entender... Voltando ao piropo, não é inédito. Não deve uma palavra à imaginação. Foi proferido por um trolha sem rosto. E evoca o nome de Deus em vão... Mas trazia com ele alma. E expressividade.
Soube-me mesmo bem ouvi-lo. Sobretudo porque surgiu dois dias depois de outro. “Esta gaja não vale um c...” Juro que teria ignorado não fosse o contexto. TPM. Poucas horas de sono. Desconforto em relação à toilete acabada de escolher. E, sejamos francos, uma afirmação desta natureza é efectivamente demolidora. Deixou-me devastada. Não que dê importância a estes “mimos” de rua. Mas doeu. Nunca ninguém me tinha descrito com tão baixos predicados. Não na minha cara. É que fora dela tanto me faz. A sério. Mas não, foi dito em voz alta. Ao vivo e a cores.
No mesmo instante, senti alguns pares de olhos anónimos sobre mim. Todos eles ávidos de curiosidade. Mal ou bem intencionados, todos olharam. Motivados por um desafio pouco dignificante. Ver a gaja que “não vale um c...” O que terão concluído? Valia ou não o dito membro? Continuo sem saber o que ficaram a pensar.
Mas, já agora, deixo-vos uma reflexão: qual o “valor de mercado” do respectivo? Como se avalia? Que premissas estão em jogo? É só para aferir a lógica da ilação que acabo de inventar: "Este c... não vale uma gaja." Que tal?
Santa Maria Mãe de Deus...
Monday, June 02, 2008
A par da óbvia diferença anatómica que distingue os homens das mulheres há um rol de sensibilidades que são específicas de umas e de outros.
A forma como vêem o contexto das coisas, por exemplo, é diametralmente oposta. Eu explico melhor. O sentido de oportunidade não significa o mesmo nas versões feminina e masculina. Aliás, a meu ver, os “machos” são mesmo destituídos desta noção. Por outro lado, as “fêmeas” dão por norma muita atenção aos enquadramentos...
Passo a ilustrar, a mulher raramente se atreve a comprometer o primeiro encontro, um jantar especial ou um momento romântico com o relato de um “flirt” antigo. Não interessa o quão antigo seja. Não interessa que pouco ou nada tenha significado (se nada significou por que se evoca o assunto?). Não interessa que a história tenha apontamentos de humor (a vontade de rir passa assim que a interlocutor(a) percebe que o centro da atenção é alguém que já esteve no seu lugar!). Interessa menos ainda saber de quem se trata. A abordagem é simplesmente desadequada.
Há momentos que devem acontecer apenas a dois. Sem fantasmas. Nem fantasminhas. Ponto final.
Monday, May 26, 2008
“Tu também és uma esquisita da ...” Deixo a conclusão da frase ao critério de cada um. Que é como quem diz, à sua imaginação primária.
Há dois dias no metro fui surpreendida com a abordagem sui generis de uma avó à neta com cerca de sete anos. Seguia rumo à Alameda quando as duas entraram em Chelas. Vieram tumultuar o meu sossego num abrir e fechar de olhos.
Passo a explicar... A avó, de formas avantajadas, trazia jeans elásticos, decote generoso e cabelo descolorado. Trazia também o jeito gaiato de quem é nascida e criada num bairro pobre de Lisboa. Fez-se notar assim que entrou. Esbaforida, gesticulou para a menina sentar-se junto dela. Face à recusa daquela não hesitou evidenciar o “latim” que aprendeu na rua: “Tu também és uma esquisita da cona” ( aqui achei importante reproduzir a dita palavra). A afirmação foi proferida em tom absolutamente possante como se a razão fosse toda sua.
Fiquei em estado de choque. Não estava a acreditar nos meus ouvidos. Depois de uma breve troca de olhares com a senhora do lado não resisti a uma gargalhada. A essa seguiu-se outra e, até ao destino, fui acometida de um ataque de riso intermitente. Acho até que os meus abdominais agradeceram o exercício.
Ciente da asneira e querendo remediar o quadro, a idosa continuou a falar, mas noutro registo. Agora condescendente, acrescentou: “Mais queria ter cem netos do que ter-te a ti. Só as dores de cabeça que me causas...” E continuou numa ladaínha à beira do indecifrável. A criança, alheada dos desabafos da avó - talvez por que os ouve desde sempre - indaga com mel no olhar:
“Compras-me uma história?”
“Não senhora, a menina tem os livros da escola para ler.”
“Mas a professora não marcou trabalhos de casa, avó.”
“Ah não!? Mas que raio de professora é essa? Não entendo estas professoras modernas. Não querem é fazer nenhum.” Ao concluir a frase olha para mim em busca de aprovação. Preferi baixar os olhos porque me faltou coragem de abanar a cabeça em sinal de discordância absoluta.
Astuta, e na expectativa da minha atenção e - quem sabe - simpatia, a idosa resolveu desviar assunto. Virando-se de novo para a miúda, vestiu a capa de educadora a sério e choramingou: “Prometes à avó que nunca mais arrancas os pêlos?” “Eu não arranquei, raspei com a gilete da mãe...” Só então olhei para a criança e notei-lhe ausência de sobrancelhas. Senti de novo vontade de rir. E agora também de chorar. É que a criança era mesmo esquisita. Ela. A avó. E, provavelmente, a família toda. Mas era esquisita dos... Dos cornos, claro. Isto para não me distanciar muito do contexto.
Monday, March 24, 2008
“Que chatice...”, pensei contrariada. Estava mesmo com vontade de aproveitar a viagem para ler. Ando agora entretida com o manual do curso de reiki. E, claro, prefiro ler sentada e bem acomodada. Mas logo me lembrei de uma máxima bem a propósito: “apenas por hoje não me vou preocupar”. E, mesmo de pé, embrenhei-me na leitura.
Tão distraída me encontrava a descobrir mais sobre a harmonização das energias vitais quando um senhor já idoso me cede o lugar. Aceitei prontamente julgando-o de saída. E muito surpreendida fiquei quando, duas ou três estações à frente, reparei que ele ainda ali se encontrava. De pé, mesmo ao meu lado. Olhava com serenidade para mim. Perguntei-lhe, então, porque me oferecera o lugar, uma vez que não ia sair. Com a calma e sapiência de quem deixou de ter pressa há muito, explicou: “A menina está a ler. Eu tenho pouco ou nada para fazer. E muito tempo para me sentar...” A resposta apaziguou-me. Tinha tanto amor no olhar que encheu o meu dia de sol. Naquele momento intuí: este homem foi numa das suas vidas passadas o ancião mais sábio e importante de uma casta tribal. Senti ainda que, nessa ou noutra encarnação, as nossas vidas - a dele e a minha - haviam cruzado.