Thursday, April 07, 2011

“Oh mãe, não fiques triste. Ainda te vou dar muitas alegrias...” A promessa foi selada a beijos e afagos. Rodrigo tem nove anos e não está preparado para as lágrimas da mãe. Como se alguma vez fosse estar. Não há idade que prepare para as dores da nossa progenitora.




Os pais estão a separar-se. O que ele já supusera inevitável. O que ele, de certa forma, desejara muito. Ao fim de dias e noites de gritaria histérica pela casa. Pela rua, no carro e até à porta da escola. Uma vergonha. Quase tão grande como a tristeza. Já não havia como dar a volta. As sucessivas faltas de respeito extraviaram qualquer possibilidade de reconciliação. Até na cabeça de Rodrigo. O desabar daquele casamento era um fardo muito pesado para a sua compreensão de menino. Foi com alívio que tomou conhecimento de que as duas pessoas mais importantes da sua vida passavam a seguir caminhos separados.


Só não contava com as lágrimas da mãe. Lágrimas bojudas. A escorrerem-lhe desenfreadas pela cara abaixo. Vincando os vincos que nas últimas semanas lhe vêm pesando o rosto ainda jovem. Isso foi o golpe mais duro de todos. Os insultos Rodrigo podia bem fingir não escutar. Quando os gritos se tornavam insuportáveis, amortecia-os enchendo os ouvidos de algodão e tapando-os com a força toda das suas mãozinhas. Agora aquela mágoa salgada no rosto desfeado da mãe era arrepiante. Jurou, para ela e para ele sobretudo, jamais dar-lhe motivos para chorar. Nem que isso significasse mais tempo de estudo e menos de recreio.


Passaram três ou quatro meses. “Mãe, tive 98% a português. Agora sou mesmo o melhor da classe. A professora diz que sou um exemplo a seguir. Estou tão feliz, mãe. Eu não te disse que ias ter muito orgulho de mim?” Um orgulho gigante, de facto. Tão grande que lhe abafou os elogios. Só conseguiu abraçá-lo. Com tamanha força que o sufocou. “Mãe, pára… Assim magoas-me. Não me apertes tanto, mãe…” À falta de palavras, engasgadas pela comoção, o abraço era tudo o que tinha para dar. E fê-lo como se não o quisesse desabraçar mais.

Wednesday, March 23, 2011

Há os que coleccionam sins. Os que coleccionam nãos. Os assim-assins. Os quases. E por aí fora… Pior são os que coleccionam estupidezes. Acabo de “conhecer” um destes últimos. A caminho do metro, sou interpelada por um parvalhão com arzinho de beto tonto. Não é que o gajinho me empurra com veemência?! Dei de barato e contive o retorno. “O outro vem distraído…” desbafei para dentro, apesar da irritação. Depressa percebo que o outro não é distraído mas parvo. E a tempo inteiro. Bem à minha frente prega um grito junto ao rosto da adolescente que caminha no sentido contrário. E continua a marcha a passos largos. Sim porque, para além de parvo, é cobarde. Não se atreve a esperar pela reacção.
Ainda olhei à volta a ver se a cena estava a ser filmada. Com a proliferação de programas televisivos de terceiro escalão nunca se sabe... Não vi câmara nenhuma. E como se nada fosse, o parvalhão com pinta de beto xoninha insiste na sua implicância com o mundo e arredores. Passa o semáforo fechado aos peões e assenta uma valente palmada no homem que segue de mota. Juro que naquele momento me apetece apressar o passo e desfazê-lo ao soco. Deveras surreal. Não satisfeito ainda, três metros à frente, quase derruba uma velhota com outro encontrão. E olha-a nos olhos com a provocação de quem perdeu os mínimos. Se alguma vez os teve…
Entretanto, o número de passantes adensa e perco-o de vista. “Ao menos isso.”, concluo de mim para mim. Serve de pouco. Perco-o de vista mas segue comigo em pensamento. Como ousa aquele projecto de ser importunar quem passa? Que raio de vida infeliz a dele! Paz à sua existência…

Tuesday, February 15, 2011

“Adoro-te mana.”


Também te adoro, mano. E estou grata pela oportunidade que me dás de dizer que te adoro.

É-me difícil, sabes? Sou até física, expressiva e descritiva. Mas tenho uma dificuldade intrínseca de expressar o amor por aqueles que amo. E mais ainda pelos que não amo. Desculpa o pleonasmo e a chalaça. O disparate e as figuras de estilo confortam-me quando estou pouco à vontade.

De volta à dificuldade de expressar o amor por aqueles que amo, não compreendo o bloqueio. A sério que não o compreendo. Mas ele existe mesmo à revelia da minha compreensão. E atormenta-me uma vez ou outra. Sobretudo quando reprimo gestos de carinho à mamã e ao papá. E calo o meu amor por eles, por não saber como dizer-lhes. Apesar de incomensurável. Como sabes. E eles também.

Tuesday, January 25, 2011

Estou num daqueles dias em que não estou bem nem mal. Estou uma espécie de assim-assim. A fazer pandant com a condição lusitana. E digo-vos que é uma grande merda este estado de alma. Não me identifico absolutamente nada. Tudo no geral e nada em particular me entedia. Não sei se é da lua. Mas não me parece. Até porque hoje a dita está cheia. E diz quem é dado às coisas dos astros e afins que quando assim é, nós – em especial nós, as gajas – ficamos mais entusiasmadas…

Mas não. Não há entusiasmo à vista. Muito antes pelo contrário. O que vale é que vai sobrando assunto, ou falta dele, para escrever. É que isto da escrita é doloroso que se farta. Gosto de escrever. Mas gosto menos quando assumo o compromisso de o fazer. Talvez por isso tenho fugido das publicações como o Diabo da cruz. O que acaba por ser um paradoxo infernal. É que, se por um lado me apraz publicar, por outro, gosto pouco que me digam sobre o que escrever. Pior ainda, tenho verdadeira aversão às datas de entrega. Atordoam-me a criatividade. É de tal forma que me perco do objectivo quase sempre. Enfim… Gostava de ser menos divagarosa (acabei de inventar esta) e possuir um raciocínio mais matemático. Gostava mesmo. De tal forma que nas aulas de ioga, nos momentos de introspecção, quando a luz toma conta da minha vontade, é isso que peço: um raciocínio mais matemático.

Thursday, January 13, 2011

Vergonha alheia

-Atchiiiiiiiim. Atchiiiiiim. Atchiiiiim.
- Estás com uma gripe tremenda, amiga! Porque é que não ficas em casa? Nesse estado ainda contagias as crianças todas!
- Isso não me preocupa mesmo nada, se queres saber. Atchiiiiiiiiim. Lá na creche,  ninguém falta por estar com gripe. Aliás,  as minhas colegas até tossem e espirram de propósito para cima dos miúdos. Assim são sempre menos dois ou três que aparecem no dia seguinte. Poupa-nos imenso trabalho. Atchiiiiiim. Atchiiiim.  (O jovem que a acompanha com certeza teria preferido não saber,  mas ela prossegue com o racicínio) Este ano, a classe é mesmo difícil. São muitos bebés, choram por tudo e por nada, sujam as fraldas de minuto a minuto, demoram horas a adormecer. É bastante complicado.
- Pois, acredito que sim. Mas foste tu que escolheste ser educadora... (Embaraçado e ciente de que estão a ser escutados por algumas pessoas, o “amigo” faz toda a questão de se demarcar) Não era suposto seres mais vocacionada?
- E sou vocacionada! Uma coisa não invalida a outra. Isto é só uma constipaçãozinha. Não é nada grave. Não stresses, na pior da hipóteses é uma gripe. E depois? Assim os miúdos até ganham anti-corpos. Estou ainda a fazer-lhes um favor, se queres saber…
Parece ficção. Mas é a transcrição fidedigna do diálogo que tive o desprazer de escutar um dia destes no metro apinhado de gente. Indignada e estupefacta, apetece-me dar “um chega p’ra lá” àquela menina tola aprendiz de educadora de infância. Mas não vou a tempo de dizer o que quer que seja. Ela sai entretanto na estação antes da minha. Resta-me a “vergonha alheia”.  A expressão que li en passant no mural de uma amiga do facebook vem-me logo à memória. Vergonha alheia. É exactamente o que sinto perante tamanha falta de consciência e respeito pelo próximo.

Monday, January 03, 2011

- Porque é que o teu pescocinho cheira a cerelac?

- Não sei... A cerelac?

- Sim, a papinha de bebé. É doce e suave. E o meu, amorzinho, a que cheira?

- Cheira a perfume, acho eu...

- Tu não tens poesia.

- Nem sequer tenho olfacto, quanto mais poesia...

Wednesday, December 15, 2010

Está um frio surreal. Não vale a pena contra-argumentar com os países nórdicos. A sério, é uma comparação desleal. Venho da Madeira. Quase que me atrevo a dizer, uma ilha tropical. Vivi até ao refilar da idade adulta num clima ameno. Quando cheguei a Lisboa pela primeira vez fui derrubada pela primeira gripe marada da minha vida. Levou-me à cama dois ou três dias e só acalmou à força de antibiótico e outros venenos. Eu que fazia gala de não tomar medicamentos! Foi no início de Outubro de há mais de vinte anos. Em pleno Outono. Para mim era como se fosse Inverno. E dos agrestes. Desde então ganhei carapaça. Mas hoje tenho frio. Não conto ficar doente como então. Até porque estou a entrar de férias e não teria graça. Muito frio. Tanto como no dia que cheguei a Lisboa. Tanto frio que sinto o nariz apalhaçado e os mamilos doridos. Tanto frio que de repente as minhas mãos envelheceram anos a fio. Tanto frio que o meu cérebro congelou e na frase anterior fez-me rimar uma rima tola. Não foi de propósito. Abomino rimas infantis. Mas foi de propósito que a deixei ficar. Para que percebam do frio que tenho.

Tuesday, December 14, 2010

Estou de novo cara a cara com a folha branca. Assim de repente nada me ocorre contar ou dizer. Estou basicamente a fazer uso da folha branca, agora com alguns caracteres pretos, para fins terapêuticos. Sinto-me um pouco triste. Por nada em particular. Por tudo em geral. Talvez porque em final de ano é tempo de balancear a minha vida. Talvez porque as expectativas que trazia me pareçam agora distantes. Talvez porque a crise que assola o mundo, o país e a cidade onde vivo não me deixe indiferente. Não a crise em si mas a atitude perante ela.

Provavelmente, e o mais certo, é estar neste momento a conjugar disparates. Apenas porque me apetece ocupar a mente com algum raciocínio. Apenas porque disso poderá depender a minha sanidade mental.

O engraçado é que a folha branca fica aos poucos e poucos matizada de preto. Não permite que me dê brancas. Pelo contrário, inspira-me. Tem a margem que preciso para espreguiçar o estado de alma. À partida as ideias são pouco claras mas assim que começo a teclar vêm à superfície. É comum apanharem-me desprevenida…

Friday, December 03, 2010

Conheceram-se em reportagem. Ele fotógrafo. Ela jornalista. A química aconteceu quase de imediato. Ambos madeirenses a viver em Lisboa. Ele não sabia dela. Ela não sabia dele. Iam rumo ao sul. Ao serviço de uma revista.

A caminho, ela pergunta: “Faltam muitos quil(h)ómetros para chegarmos?” O sotaque fá-lo clicar. “És madeirense?”, indaga com surpresa. Descobriram assim que eram conterrâneos. Um pouco mais tarde, nesse ou no dia a seguir, descobriram algo mais. Ele percebeu primeiro. Perdido no azul dos olhos dela. Ela rendeu-se. Perdida na sexualidade da voz dele. Foi um encontro especial. Tudo conjugava a favor. O sol, o mar, o spa do hotel, o vinho branco, o tinto, a leveza de ambos.

De regresso ao quotidiano, o romance ainda bebé sucumbiu. Os compromissos de um e a imaturidade de outro ditaram o fim da história. Ficaram resquícios de paixão. Passados seis anos, voltam a encontrar-se. A chama, quase extinta, reacendeu. É que era para ser. O fado assim destinara. Desconhece-se o the end. A história continua…

Sunday, November 28, 2010

Eu sou assim. Não é quando posso. É quando a cabeça quer. Ela é que manda. Definitivamente. Quando estou folgada e tenho o tempo todo não me apetece escrever. Ou apetece-me menos.

As ideias são do contra. Não afluem. Nem fluem. Enfim…

Gosto realmente de escrever quando tenho em paralelo uma série de outras coisas supostamente mais importantes para fazer. Quando outros compromissos se sobrepõem em matéria de urgência. Nesses momentos, dissipo as dúvidas. Não que as tenha já. A minha arte é a escrita. Não me paga as contas. Mas faz-me festinhas à alma.

Não escrevo a metro. Quando me colocam um número de caracteres em perspectiva atrofio logo. Não aprecio que me digam o tamanho da escrita que faço. Nem para mais nem para menos. Escrevo até passar a ideia que se me atravessa. Por norma sou sucinta. Tenho alergia a floreados. Na minha opinião, são um péssimo disfarce de quem tem pouco ou nada a dizer.

Thursday, November 25, 2010

Não me sinto habilitada a fazer o luto pela avó Ainim. Francisca de sua graça. Não sei quando ou por que razão surgiu o petit nom. Sei é que todos os que lhe eram queridos a tratavam assim.

Não me sinto habilitada a fazer o luto pela avó Ainim. Recusei-me fazê-lo então. Não me parece que o faça alguma vez. Por ela continuo a ter um amor tão grande, tão grande, que não cabe neste texto. Não caberia num livro. Nem mesmo numa mega produção galardoada.

A minha avó morreu cheia de vida. O paradoxo talvez explique a renitência em aceitar que me deixou. Eu tinha quinze anos e estava tudo menos preparada para perdê-la. Fiquei desesperada. Quando a vi de boca puxada ao lado pela maldita trombose fugi. Em vez de abraçá-la, fugi. Fechei-me na casa de banho. Histérica. Ufa, a dor ainda me atravessa o peito. Por vezes sara. Por vezes sangra. Mas a psicanálise deixo para depois. Para as instâncias próprias.

Não perdi completamente a avó Ainim. Tenho-a de forma diferente. Divido com ela os momentos bons. Os maus também. Até os assim-assim. Continua tão presente na minha existência, que quase lhe sinto o Anaiis da Cacherel.

E tão ausente, que me fazem falta tantas coisas banais. Os bracinhos flácidos e macios que eu apalpava vezes sem conta em jeito de mimo. O sumo de laranja que nas manhãs de inverno me levava à cama com uma “pontinha” de açúcar e muitas palavras doces. As repreensões pouco veementes que eu só reconhecia porque ao invés de Gracinha me chamava de Graça Maria. As cantorias que improvisava sempre que se embrenhava nas lides domésticas. As idas à missa seguidas de almoço fora onde me deixavam escolher bife, batatas fritas e sumol de ananás. A cumplicidade feita de muitos serões no sofá a ler-lhe as legendas do Dallas. As frases tão dela como “a menina não tem querer” ou “isto não é brincos para a menina”.

Não estou habilitada a fazer o luto da avó Ainim. Nem quero já. Gostava apenas que doesse menos a falta que ela faz.

Wednesday, November 24, 2010

Detesto ser bafejada pelo fumo dos outros. Fumei durante quinze anos. Tempo suficiente para perceber que sou adversa ao fumo e às pessoas que fumam para cima de mim.

O clique aconteceu quando a pneumologista me encostou à situação: “ou fumas ou vives.” O baque foi tal que nem liguei ao facto da estúpida me tratar por tu como se fosse amiga lá de casa. Essa modinha tola de alguns doutorzinhos falarem de cima com os utentes é realmente uma coisa que me transcende. Faz-me ranger os dentes de irritação. Como se não bastasse o tom condescendente, ainda tratam por tu pessoas que os podiam ter parido. Por exemplo. Esquecem eles que o respeito é uma coisa linda de usar.

Voltando à consulta e à sentença de fumadora condenada por um início de enfizema pulmonar,

a primeira questão que me coloquei foi esta: “Como vou escrever o raio do texto?” Trabalhava na RTP Madeira. Tinha feito a reportagem no terreno. Não me lembro já do que se tratava. Seguiu-se a consulta. Seguia-se a redacção e edição da peça. Mas, como os cãezinhos de Pavlov salivavam ao som da campaínha, eu condicionara a escrita ao acto de fumar. Só começava um texto depois de acender o cigarro. Mesmo assim, e absolutamente convencida que tinha de mudar de carreira, mal saí da clínica espezinhei o maço de Marlboro Lights.

Quanto ao texto, foi complicado. Muito complicado. Não consegui apanhar o ângulo certo. Escrevi e apaguei vezes sem conta. Detestei o resultado final. Fui repreendida pelo chefe de redacção pela demora. E só graças ao cross do colega de edição a peça entrou no jornal da noite. Fiquei a milímetros de um ataque de pânico. Assim começou a minha luta contra o fumo. Um processo interrompido algumas vezes. Com as desculpas mais rotas do Planeta. Foi deveras doloroso. Mas valeu bem a pena. Num dos pratos da balança pesa a intolerância com os fumadores à minha volta. No outro, e com um peso bem mais significativo, está a saúde dos meus pulmões. Apurado o custo de oportunidade, o fumo perdeu. Sem margem para hesitações.

Monday, November 22, 2010


Queda para o trambolhão



Desde cedo percebi a desastrada que estava predestinada a ser. A confirmação tive-a no liceu. A partir daí tenho somado um rol de disparates sem conta. Tudo devido à minha incontinência verbal.

Voltando ao liceu, tinha um professor de inglês que mal continha o olhar lascivo na minha direcção. Incapaz de disfarçar o entusiasmo, mandava-me ao quadro o dobro da vezes que seriam razoáveis. Olhava-me sobretudo para o peito que, já na altura, resvalava para o generoso. Não sei se estou ou não a ficcionar mas quase juro que o coitado até deixava escapar umas gotas de suor do rosto ruborescido.

Durante a frequência destas aulas, conheci uma rapariga com a qual empatizei. Quando já éramos quase amigas, descobri que era filha do dito cujo. Soube-o da forma mais inconveniente possível. Perguntou-me ela quem me dava aulas de inglês. Na ignorância, respondi: “Um porco gordo que baba sempre que me vê. E não pára de me olhar para as mamas. É aquele da barbicha à tarado, o professor X.”

Tão entusiasmada estava na minha descrição que não topei a mudança de fisionomia da minha quase amiga. Só reparei efectivamente quando, com alguma rispidez na voz, me disse: “É o meu pai.”

Naquele momento, gelei. O tempo parou. As palavras secaram-se-me. Consegui, ao fim de uns segundos agoniantes, esboçar uma espécie de pedido de desculpa. Atabalhoada saíu-me apenas: “ Upsss... Não sabia que era teu pai.”

Excusado será dizer-vos que a nossa amizade, ainda em fase embrionária, ficou por ali. Foi o primeiro deslize de que tenho memória. Achei que seria o último. Mas, na verdade, a minha queda para o trambolhão é já um traço de personalidade. Nada a fazer.

Thursday, November 18, 2010

Rosa ou vermelho? Rosa.

Pergunto-me vezes sem conta se já não está na hora de preferir vermelho. A resposta é sempre negativa. A favor do rosa. Talvez por achar vermelho cor de “senhora”. Talvez porque sempre que penso em vermelho, me vêm à ideia o tailleur e as unhas da minha mãe. Talvez por considerar vermelho rosa maduro. Talvez por temer a maturidade que reconheço no vermelho. O facto é que entre o vermelho e o rosa, o rosa vence. Mas não tenho nada contra o vermelho. Até gosto. Só não tanto quanto ao rosa.

O que não gosto mesmo é de castanho. Sinto-me triste de castanho. Aprecio numa ou outra pessoa. Em mim é que não. A minha avó, adepta fervorosa de cores garridas, costumava dizer “castanho é cor de velha”. Ela que tanto medo tinha de envelhecer… Herdei-lhe isso. A aversão ao castanho. E o horror ao envelhecimento.

Monday, November 15, 2010

Sou excessiva. Amo muito as pessoas que amo. Amo mesmo demais as pessoas que amo. Só não odeio demais as pessoas que odeio porque não odeio de todo. Mas as pessoas de quem não gosto, não gosto mesmo. Já não tenho idade nem paciência para contornar. Não gosto e acabou. Não há lugar na minha vida para as pessoas de quem não gosto. E quando não gosto, não gosto porquê? O principal motivo é não gostarem de mim. Porque gostar implica dois interlocutores, no mínimo. Quando um deles não dá, o outro não pode dar de volta. Não vou ao encontro de quem não vem ao meu. Já fui. Não vou mais. Simplesmente não vale a pena. Sobretudo por uma questão de auto-estima. E poupança de energia.


Friday, November 12, 2010

De metro até Paris


Esta manhã fui até Paris dos anos 50 e 60. Por entre os acordes de um músico errante. Fui de Metro. Entrei na Alameda e saí no Cais do Sodré. Quando era suposto sair na Baixa Chiado. Mas a distração valeu a pena. As melodias entoadas pelo acordeão tosco e grosseiro levaram-me a passear pela cidade da luz de outros tempos. Fui pela mão de Edith Piaf e Jacques Brel. Dei por mim a trautear “Ne Me Quitte Pas”, “La Vie en Rose” e “Non, Je Ne Regrette Rien”. Imaginei-me perdida, ou encontrada, na penumbra de fumo de um bar boémio, a ver e ouvir as duas grandes vozes do amor e do drama cantados em francês. Estava de vestido carmim com um decote generoso, acompanhada de figuras proeminentes da literatura como Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, a beber champanhe e a exibir uma boquilha enorme (mais pelo estilo do que pelo vício). Um pouco ao estilo do Midnight in Paris de Woody Allen. Senti-me romântica. Senti-me inebriada. Senti-me feliz.
À saída perscrutei as moedas que tinha e deixei-as todas na caixa do Aladino que me transportou àquela atmosfera de sonho. Ao fazê-lo, senti-me tola. Quero dizer, fizeram-me sentir tola as pessoas que me olharam incrédulas e de sorriso trocista. Lamento se não visitaram Paris esta manhã ou alguma vez. Lamento se não ficaram arrebatadas de emoção com as vozes grandes ali evocadas. Lamento se não visitaram os cabarés parisienses nem deambularam pelas sumptuosas avenidas da capital. Não sei se o fizeram ou não. O que sei é que me olharam como se fosse feio “pagar” por uns minutos de prazer. Olharam-me como se estivesse a alimentar a mendicidade. Estava apenas a gratificar uma despojada manifestação artística. Ou nem tanto despojada. Já que a intenção do músico era angariar trocos. Mas que importa isso? Saímos ambos satisfeitos. Ele, com a caixinha menos leve. Eu, de alma mais cheia.

Wednesday, November 10, 2010

E porque uma nova semana se avizinha, e porque prometi, e porque nada de mais interessante me ocorre, estou cá de novo. A escrever. Ainda não sei sobre o quê. Juro que estou em branco. De frente para a folha branca do word.

Ups, ocorreu-me partilhar uma indignação. Há dias, vi num vídeo duas pessoas a serem espancadas em plena Rua de Santa Catarina, no coração do Porto. Tudo porque se encontravam numa troca de afectos libidinosa. E uns seres de mentes tacanhas, não satisfeitos com uma simples chamada de atenção, largaram de arrear nos ditos amantes. É que o acto sexual, implícito (já que ambos se encontravam vestidos e de genitais resguardados), incomodava muita gente. Estranho é que os estalos e os pontapés não tenham surtido o mesmo efeito. Quase impávidos e pouco serenos (mas a favor dos algozes), os passantes testemunhavam o julgamento popular como se fosse tudo muito razoável. Qual tempo da Inquisição, qual quê… A moral e os bons costumes têm mais é que ser defendidos, ainda que a soco e pontapé. Sei lá, deve ter sido mais ou menos isso que pensaram. Esqueceram-se, porém, que a violência é um quadro bem mais reprovável do que sexo em praça pública.

Fiquei em estado de choque com o que vi. Juro que me sinto ameaçada. Psicológica e fisicamente. Como se vivesse num escuso país de Leste, paredes meias com as máfias de rua.

Tuesday, November 09, 2010

Fodam-se mas é… Desculpem os maus modos mas estou absolutamente cansada de ouvir “estou fodido(a)”. E sem que a exclamação implique sexo. Ainda se fosse…

“Estou fodido” é proferido vezes sem conta de forma ligeira, querendo apenas dizer estou lixado, irritado, furioso. E, parecendo que não, a maior parte das vezes “estou fodido(a)” significa simplesmente o contrário do que se diz. É como que desabafar “estou com ganas de foder” ou “estou a precisar de uma contra a parede”.

Não querendo divagar sobre a intimidade dos outros, sobretudo a de quem não conheço, atrevo-me a conjecturar que a razão primeira de todas as irritações, ou quase todas (vá lá), é a falta de sexo. Não é à toa que as pessoas mais azedas são as menos resolvidas a esse nível. Ou não têm companhia de cama ou a que têm apenas faz uso dela para dormir. É triste mas assim acontece muitas vezes.

Wednesday, November 03, 2010

Ah pois é… Estou a vislumbrar uma vontadezinha ténue de escrever. Na verdade, não sei se efectivamente a tenho. O que estou, isso sim, é a mandar comandos ao cérebro a fim de voltar a ter vontade de fazê-lo. É tempo de tornar a pôr as ideias em dia. Além disso, a pressão tem sido muita. Muita, muita não. Já estou a divagar… Tomara eu. Não tenho um universo de leitores tão significativo. Tem sido alguma.

Ainda ontem celebrava a nova contratação do Pedro, quando de repente os meus textos vieram à conversa. A ausência deles, mais precisamente. Foi num agradável afther work, entre o copo de vinho e o non sense da descompressão, que os meus amigos me repreenderam.

A Patrícia classifica de escandalosa a inércia em que me tenho deixado estar. Diz ela que o mais importante, o talento, está do meu lado e que só me falta meter mãos à obra. Que é como quem diz, puxar pela cabeça e fazer os dedos ao teclado. O Pedro não poupa adjectivos superlativos à forma e estilo das minhas redacções. O que eles não entendem é que, no que me diz respeito, isto de escrever não é de encomenda. É mais uma coisa de combustão espontânea. O certo é que ambos, cada um a seu jeito, me fizeram perceber que tenho perdido tempo e caracteres este tempo todo.

Se sempre escrevi sobre quase tudo por que razão passei a escrever quase nada? Eis o mote da reflexão… E porque sem objectivos não há disciplina, assumo convosco o compromisso de “postar” um texto por semana. No mínimo. Ainda que tenha de recorrer a substâncias recreativas… Ei, estou a brincar. Naturalmente. Agora sou uma ex-tóxico. Lol

Sunday, July 18, 2010

A verdade

De máscara de argila no rosto, trazia o coração em sobressalto de mais uma noite de amor clandestino.
- Posso entrar, filho?
- Sim.
- Que se passa contigo? Já não me contas nada! Nunca paras em casa. Por onde andas o tempo todo? Já não estou a achar piada nenhuma a estas ausências. Das duas, uma: ou andas na droga ou estás metido com uma mulher mais velha... Diz a verdade à mãe.
- Eu sou gay.
- O quê?! És capaz de responder ao que te pergunto?
Sai porta fora, sem ousar confirmar o que acaba de ouvir. Uns minutos depois, o pai bate-lhe à porta do quarto e, sem esperar por consentimento, entra.
- Há coisas que não se dizem, filho! Precisas que te carregue o telemóvel?
De saída, entre incrédulo e enojado:
- Mas como é que soubeste? Como é que vocês fazem?l
Passados três ou quatro segundos de interminável silêncio:
- Não me contes. Não quero saber... Ah, ainda tens dinheiro na conta?