Friday, January 27, 2012


E porque a paixão é aquela coisa que não se explica por mais que se tente explicar, tudo aconteceu assim sem como nem porquê. De repente - não mais que de repente, como diz o poeta - Maria do Mar voltou a sentir o coração a bater mais forte. Não é que o rapaz do restaurante vem sacudi-la da apatia sentimental em que estava? Tudo porque os olhos dele e os olhos dela se encontram por um acaso do destino! E se há motivos que nos fazem duvidar das razões do Universo, outros há, como o amor, que nos levam a crer que tudo faz sentido e nada acontece por acaso.
Antes de sair do restaurante, Miguel deixa o número de telemóvel num outro guardanapo. Desta vez, sem intermediário, entrega-o à menina dos olhos da cor do céu e do mar. Não sabe nada sobre ela. Mas sabe que o pirlimpimpim da química está a fazer das suas. Por ora basta-lhe. A contar deste momento, aguarda cada minuto com a paciência possível. Quase nenhuma. Novecentos minutos depois, o telefone toca. Ele, pela arritmia que o assola,  sabe que do outro lado é ela. De voz suave, quase infantil. “Olá, Miguel. Eu sou a Maria do  Mar… (e o silêncio de quem não sabe o que dizer sem soar ridícula).”
“Olá, Maria do Mar. Ainda bem que ligaste! Estou à espera há quinze horas… (e o silêncio de quem não sabe o que dizer sem soar ridículo).” Com hiatos de parte a parte, a conversa segue, periclitante, até o agendar do primeiro encontro. Amanhã às dezanove horas, em terreno neutro. O aeroporto. Ela decide. Ele concorda sem questionar. 

Friday, January 20, 2012

Já não era sem tempo… Maria do Mar está de novo apaixonada. “Desta vez é que é!”, esta a convicção da nossa menina. É, aliás, a convicção de quem se apaixona de novo. Ela resiste mas quando o amor acontece, acontece e ponto. Ponto não. Vírgulas, reticências, pontos de interrogação, exclamação, pontos e vírgulas mas nada de ponto. Quando o amor acontece, não há como ignorá-lo. A via é mergulhar de cabeça. Ou fugir a sete pés. Não é o caso. A xavelha de Câmara de Lobos é das que não têm medo. Não identifica os sinais na primeira abordagem. Escudada dos assuntos do coração desde Kadhafi, não vê o óbvio aos olhos de quem está de fora. 
Tudo começa em noite de saída. Jantar e copos com duas colegas para assinalar a entrada no curso de Biologia Marinha da Universidade da Madeira. Quem diria? Há cinco anos, o cenário era bastante remoto. Para não dizer impossível. Mas "quando há uma vontade, há um caminho", traduzindo à letra "where there's a will, there's a way".
Voltando ao assunto, no restaurante as três caloiras festejam e projectam as novas aventuras académicas quando Maria do Mar pressente alguém a fixá-la. Curiosa, leva o olhar ao encontro dos olhos que a espreitam. Para ela, é pouco mais do que uns olhos bonitos a olharem os seus. Também bonitos por sinal. Para ele, é muito mais do que isso. É a certeza de que nenhum deles está ali por acaso. Nunca a tinha visto. O amigo dele também não. A situação requer ousadia. Tudo menos o risco de a perder de vista. Esquecendo por um instante que é tímido, escreve no guardanapo “Acho que estou apaixonado... Miguel”. O empregado aceita fazer de mensageiro. Surpreendida, Maria do Mar volta a olhar na direcção dos olhos que a vêem. Desta vez, o brilho é igual nos dois sentidos.

Thursday, January 12, 2012

24 de Dezembro. Falta pouco para a meia noite. Em casa de Maria do Mar reina a boa disposição. A criançada, excitada, não vê a hora de rasgar o papel dos embrulhos. É grande a algazarra. Afinal nem todos os dias são dias de festa. Os mais velhos deliciam-se com as broas e os bolos de mel amassados há duas semanas por Maria do Amparo. Acompanham com licor de tangerina, anis ou tintantum. Uma trinca daqui, um golinho dali, uma brincadeira dacolá e os ponteiros do relógio assinalam a hora aguardada. 25 de Dezembro. A pequenada abre “caça” ao Pai Natal que, entretanto, “está já de visita a outra casa”. Com a pressa, “para que nenhum menino fique sem prenda neste dia”, deixou cair o sapato. Por acaso, até é parecido com o do pai garanhão. Mas neste momento os miúdos não querem saber e correm para os próprios sapatos. Estão junto ao fogão (à falta de lareira). É lá que cada um encontra o brinquedo que tanto deseja. Com a euforia e o açúcar dos chocolates e refrigerantes, a adrenalina dispara-lhes. Tão cedo não conseguem dormir. Mais vale deixá-los curtir as prendas até que se rendam ao cansaço. Os primeiros a quebrar são os adultos. À excepção de Maria do Mar que aproveita uns ensonados e outros distraídos para se pôr bonita. Ainda mais bonita. É que lá fora tem à espera alguém muito especial. 

Thursday, January 05, 2012


A poucos dias das festas de Natal, o mar põe-se assanhado e a construção abranda a marcha. Com as duas fontes de rendimento comprometidas, o garanhão anda assustado. A insónia é já a principal companheira dele. Passa as noites em branco a tentar trocar as voltas à crise. Que chega com descaramento de puta. São muitas as bocas à sua mercê. E ser pobre não é desculpa. É fundamental ser criativo. Neste caso, ao invés de escrever poesia ou esculpir obras de arte, é preciso criar novas oportunidades.
Logo de manhã, foi saber do trabalho da câmara municipal mas o resultado só sai na próxima semana. Candidatou-se à vaga para a recolha de lixo. É uma ocupação estável, sem os reveses da pesca e das obras. O passo está dado. Resta aguardar que as preces a S. Pedro sejam atendidas. E não cruzar os braços entretanto. Ele sabe melhor do que ninguém que sem esforço não há sorte que o valha. No caminho, passa pela praça a espalhar que está mais disponível. E, pelo sim pelo não, entra na tasca do Chico para apostar umas patacas no jogo do bicho. Há que atacar em todas as frentes…
A semana foi lenta de custosa que foi. Mas já passou. O dia desperta com céu azul. Apesar de frio. Só por isso a boa disposição é um dado adquirido. Apesar do nervosismo. Hoje é dia de saber quem é o novo auxiliar de limpeza urbana. Joaquim não pregou olho a noite toda e vai na terceira bica. O que não ajuda nada. Ansiedade mais cafeína é ansiedade ao quadrado. Seja como fôr, o resultado está a ser afixado e já não há nada a fazer. À espera do lugar estão seis homens. Uns mais contidos do que outros.  Mas todos bastante necessitados. Finalmente, a funcionária administrativa lê em voz alta o nome do contemplado: Joaquim Manuel Freitas da Silva. O garanhão deixa escapar duas lágrimas gordas. De alívio. Felicidade. Gratidão.

Monday, December 19, 2011




Uma família feliz é um quadro bonito. Uma família feliz depois de um grande desgosto é um quadro enternecedor. Com o pai de volta são e salvo, o ambiente é de festa na casa de Maria do Mar. O chefe de família vem cansado, um pouco desidratado mas grato por estar vivo. E pelo amor que o aguarda. As famílias pobres madeirenses são barulhentas quando estão felizes. Também o são quando estão infelizes. À semelhança das famílias pobres italianas. Quase indiferentes ao estado debilitado do recém chegado, todos querem saber pormenores do que aconteceu. O pai, já em descompressão e com dois ou três copos de vinho bebidos, conta tudo. “Eram ondas de cinco, seis metros ou mais… Nunca tinha visto o mar reinar assim! O Pesquita (barco de pesca) aguentou-se bem mas o Zacarias foi cuspido p’ó mar às piruetas. O gajo teve sorte não se ter partido todo. Vocês não imaginam como ele se agarrou à bóia com toda a força. Coitado, ficou foi roxo de frio. É por isso qu’ele teve qu’ir p’ó hospital. Graças a Deus não é grave. Felizmente, o barco da marinha chegou mesmo a tempo. Já ninguém tinha força. Nem p’ra gritar nem p’ra rezar… ” Enfatiza aqui e ali como, aliás, adora, arrancando dos ouvintes gargalhadas sonoras. Gargalhadas histéricas. Mais pela alegria de o terem de volta do que pelas graçolas que acaba de inventar. A algazarra é tanta que não há quem consiga dormir nas redondezas. Mas ninguém se queixa. Os vizinhos estão, naturalmente, solidários. O garanhão está vivo. É mais do que motivo para celebrar. Um “milagre” tão oportuno. Não tarda nada é Natal. E Natal significa família. Sem tirar nem pôr.

Sunday, December 18, 2011

Esperar por notícias em casa não faz o feitio de Maria do Mar. Em casa, o tempo cresce exponencial. Os segundos parecem minutos. Os minutos parecem horas. Vai até o cais, está decidido. Sem apelo nem agravo. E leva a mãe pelo braço. Mais que não seja, para a sacudir daquela angústia sem tamanho de tão grande que é. Afinal, quem são os senhores dos bombeiros, da marinha ou da força aérea para determinarem que a família espera por notícias em casa? Onde já se viu uma coisas destas? Afinal, trata-se do pai dela, das manas e dos manos dela. E do marido da mãe deles. Nem pensar que as duas ficam em casa!
Já quase no fim da rua, a voz de Eugénia troca-lhes as voltas. A gesticular bastante agitada, grita a plenos pulmões: “O pai está vivo, mãe. Acabaram de ligar, mãe. O pai está vivo. Estão todos salvos…” As duas invertem a marcha alvoraçadas. Com as lágrimas a correrem-lhes pelos rostos. Com o coração a pular-lhes no peito. Com o chão a fugir-lhes dos pés, teimosamente.  Tal a urgência de chegarem. Tal a urgência de saberem mais sobre o que aconteceu. Tal a urgência de estarem todos juntos à espera dos que faltam. Tal a vontade de fazerem um bolo para celebrar. O de chocolate, o preferido do “garanhão”. Afinal, ele é um herói. E está de volta à vida deles.

Wednesday, December 14, 2011



Ao chegar das aulas, pressente a má notícia. A poucos metros de casa, o coração aperta-se-lhe com o burburinho que escapa lá de dentro. Porque dois e dois são quatro, não precisa de entrar para saber o que se passa. Tomara estar enganada. Mas dois e dois são mesmo quatro. O tempo está de tempestade. E o pai, mais por necessidade do que por teimosia, foi para o mar. Tomara estar enganada. Antes fosse cinco ou outro número qualquer. Não está preparada para um fado destes. Ninguém está. Ela menos do que alguém. A dor de cada um só cada um é que sabe.
Ao passar a porta depara-se com a mãe, desgrenhada, num pranto. “Oh filha, o pai não voltou do mar…”, a dor abafa-lhe a frase. A mesma dor emudece as perguntas da recém chegada. Uma dor sem tamanho de tão grande que é. Maior ainda porque se junta à dores das pessoas que ama. A mãe sem norte numa ladaínha de ai Jesus. Os manos e as manas num choro aflito à volta da mesa. Faltam os dois mais velhos, que aguardam novidades junto ao cais. Com eles estão também familiares dos outros dois pescadores e responsáveis pela capitania.
“O telefone que não toca. E o meu homem que já não volta…” Inconsolável, Maria do Amparo teme o pior. Não consegue evitar lamento atrás de lamento. Maria do Mar não se entrega. Mantém a esperança viva. Afinal, neste momento, ausência de notícias significa boas notícias. Não há corpo não há morto. “Calma, mãe. Não aconteceu nada. Tenho a certeza. O pai vai voltar. Anda daí, veste um casaco e vamos até à praia saber  mais coisas…”
“A polícia mandou a gente embora, filha. Só deixaram ficar o João José e o Eleutério. Eles vão ligar assim que souberem o que aconteceu.” E prossegue, virando-se para o quadro da última ceia dependurado na parede, em registo desesperado. “Deus pai, não me leves o meu homem. Ai, por tudo o que é mais sagrado, tem piedade desta família. Ai Jesus, o meu homem não...” 

Friday, December 09, 2011

O tempo passa. Sem considerar o que  apanha pelo caminho. A gente nasce, cresce, envelhece. E morre. Maria do Mar também existe dentro do tempo que passa. Não é já a menina do início da história. É uma mulher. Feita daquela menina franzina e de outras que vivem nela. Tem dezanove anos agora. Está a concluir o secundário e trabalha numa loja de pronto a vestir. Quem a viu, quem a vê e quem terá a sorte de vê-la daqui a uns anos! Feito o luto amoroso, o custo de oportunidade é este: uma pessoa mais forte, mais determinada, mais ambiciosa. Afinal de contas, crescer é perder umas coisas e ganhar outras tantas. 
António deixou de estar no horizonte dela. Apesar de ter tentado recuperar o que deitara a perder. De rabinho entre as pernas. Profundamente arrependido. Deveras apaixonado. Mas o tempo passa. E porque o tempo passa, a oportunidade já não lhe pertence. Quando o amor vira desamor não há nada a fazer. Há circunstâncias que não têm volta. Afinal, “o caminho faz-se caminhando.”


Wednesday, December 07, 2011


No dia seguinte, António não vai às aulas. Nem no outro. Nem no outro. Aparece no quinto dia. De mãos dadas com a nova namorada. Maria do Mar não esperava.  Passados quatro dias sem sinal dele. Esperava menos vê-los aos dois. Irritantes de cúmplices. Como se protagonizassem um grande amor. Há pessoas realmente voláteis… Um dia amam muito, muito, muito alguém. Um dia depois amam muito, muito, muito outra pessoa. A chavelha fica pasma com tamanha ousadia. “Como é possível? Há três semanas, o tonto andava aos beijinhos comigo...” E mais pasma fica com a figura da outra. “O que é que ele vê na pindérica da gaja? Parece a mãe!”,  observa para os seus botões, quase chocada. Apesar de serem colegas na disciplina de português, nunca a tinha visto com olhos de ver. Mais velha, excessivamente maquilhada, cheia de maneirismos senhoris, vulgar. Da mágoa à desilusão o caminho está a ser mais curto do que estava à espera. Graças a Deus!


Monday, December 05, 2011

O caminho faz-se caminhando. Disse e muito bem Ortega y Gasset. Em sentido estrito, a caminho do  Liceu, Maria do Mar caminha determinada. Embora de coração ainda a sangrar. O confronto com António está a poucos passos de acontecer. Desde aquele dia que não o vê. Apesar da vontade que tem tido de o procurar. De pedir-lhe explicações. Enfim, de implorar que volte para ela.  Ao invés disso, tem calado a dor. Dentro dela. Dentro de casa. Hoje vai expôr-se pela primeira vez desde aquele dia. Está frágil. Tem os medos à flor da pele. O maior de todos é que ele perceba o quanto ela ainda sofre de amor por ele. O orgulho é uma coisa que Deus nos deu, muito oportuna em ocasiões como esta. É uma espécie de travão de mão para evitar embates emocionais mais duros.
O corredor está cheio de gente. Sobretudo junto às salas de aula. Mas a passar vem apenas uma pessoa no sentido contrário. António. Ainda dizem que não há coincidências! Vem em passos largos que se tornam mais largos e apressados quando a vê. Não estava à espera deste encontro imediato. Maria do Mar fica em sobressalto. Percebe o olhar dele na direcção dela mas passa como se não o conhecesse. Tem as pernas bambas, o coração acelerado e uma vontade quase incontrolável de chorar. Tem também uma grande revolta por sentir o que sente. E outra maior ainda por achar que para ele é como se nada fosse. Isso impede-a de desmanchar-se em lágrimas. “Era o que faltava…” E segue. Aparentemente serena. Tão magoada quanto orgulhosa.
A aula começa e de Kadhafi nem sombra. A aula continua e ele sem aparecer. Acobardou-se. Ela está só de corpo presente. Não escuta uma palavra da lição debitada. Envolta numa espécie de névoa. De olhos colados na porta. À espera que ele entre. Apaixonado de novo.





Wednesday, November 30, 2011


Têm sido dias difíceis para Maria do Mar. Não sai de casa há quase duas semanas. Apesar da insistência da mãe para retornar às aulas. Incrédula com a separação e ainda com as feridas em carne viva não quer ver ninguém. Não quer explicar aquilo que nem ela compreende. Sabe que a curiosidade das pessoas não se faz de rogada. Que as perguntas e, pior, as opinões hão-de surgir mesmo contra a sua vontade. Não quer ser alvo da conversa alheia. Quer menos ainda reencontrar o António ou vê-lo com a nova namorada. Mas se, por um lado, a ideia a repugna, por outro, é imensa a vontade de ver como ela é. Curiosidade de gaja. E aqui não há qualquer espécie de auto-comiseração. A ideia é mesmo saber quem é a outra, identificar-lhe os defeitos e, no fim de contas, concluir que não vale grande coisa. O processo é meio caminho andado para esquecer o sujeito de tal escolha. 
Por isso e porque a vida continua, Maria do Mar acorda decidida a ir às aulas. Afinal, perdeu o namorado mas não vai perder o ano. Isso é que nem pensar. Eugénia, a mana mais velha, está a ser uma das alavancas da sua auto-estima. Entre conselheira e ouvinte atenta, é um pouco de tudo. Hoje até lhe emprestou um vestido curtinho de cores garridas para levar à escola. É uma aliada e pêras. Como, aliás, toda a família. Porque os garanhões podem não trocar muitos beijos, abraços ou palavras doces mas promovem o carinho, a cumplicidade e o bem estar entre eles.

Monday, November 28, 2011


Maria do Amparo deixa de estar um pouco inquieta para estar muito preocupada. Em casa todos dormem à excepção dela e do filho mais velho. O marido veio cansado e deitou-se cedo. “Graças a Deus. É menos um que s’apoquenta…”, conclui  agradecida pela circunstância.
À quinta-feira,  a filha chega por volta das vinte e três horas. Já com o desconto dos mimos ao namorado. “Se calhar perderam o autocarro. Ou andam os dois nos melos. E eu aqui que não m’aguento dos nervos. Que raios… A que horas vai ela comer?” Maria do Mar tem sempre a mãe à espera. E o jantar, tapado com um guardanapo (não vão as moscas fazer banquete).
Os ponteiros do relógio marcam meia noite e quarenta. E prosseguem o movimento a cada segundo que passa.  Não há preocupação que os retenha. Porque o tempo existe. E vai  existir sempre. Alheado dos contextos que o envolvem.
Sem aguentar de aflição, Maria do Amparo prepara-se para sair à procura da cria. Já de casaco aos ombros, o telefone toca. Corre a atender, com o coração a sair-lhe pela boca. Do outro lado, Maria do Mar. “Mãe…”, sufoca num choro convulsivo.
“Então filha, o que tens? O que foi  c’aconteceu? Tou pr’aqui numa tormenta que só Deus sabe… Estás onde?”
“O Kadhafi acabou comigo, mãe. Arranjou outra… ”, o choro inadvertido não a deixa concluir a frase.
“Tem calma, filha. Tudo tem solução. Só não há remédio pr’à morte.” 
“Ainda estou no Funchal.”
“Nossa senhora nos valha! E agora como é que vens pr’a casa? A esta hora da noite não há autocarros…Onde é que tás?”
“Na Marina. Desculpe mãe, o tempo passou sem dar por isso…”
“Fica ao pé da paragem. O mano vai já ter contigo. Tem calma.” 
Entretido com um filme de acção, João José ainda não sabe que a vai buscar. Alheio às horas, não dá pelo atraso de Maria do Mar. Mas em poucos segundos a mãe põe-no a par do que se passa. Sem vacilar um instante, corre do sofá para a mota no encalce da mana. E segue veloz. A protestar contra o estuporado que a faz sofrer.

Thursday, November 24, 2011

Maria do Mar corre em direcção à avenida marginal, a Avenida das Comunidades Madeirenses, mais conhecida por Avenida do Mar. Nem de propósito. Devastada e torpe de raciocínio fica por ali horas e horas a deambular. Sem noção do tempo que passa. Até não lhe restarem forças e decidir sentar-se na ponta do Cais. A olhar o mar. Quase sem vê-lo. Mas a sentir a pulsação às ondas que beijam a muralha. De cara salgada e coração estilhaçado. “E agora?”, a pergunta surge-lhe vezes sem conta e sem respostas. Agora, nada. Nem aulas, nem autocarro de volta, nem casa. Não quer saber de nada. Agora apenas sabe a dor que sente. A dor que chega a ser física de insuportável. A dor para a qual não tem analgésico. A dor que só o tempo cura. Para ela,  eterna. Porque a dor é eterna quando a sentimos. Como o amor. 
O tempo continua a passar. Nada faz parar os ponteiros dos relógios. Nem a dor maior de todas. O da Sé Catedral marca meia noite e quarenta quando de repente olha para trás. O adiantado das horas desperta-a da comiseração em que se encontra. Toda a dor se faz acompanhar de uma espécie de auto-piedade. “Meu Deus! Tenho de ligar já para casa. Estão todos aflitos com certeza.  E agora, como saio daqui? A esta hora nem tenho autocarro…” Com este monólogo em alta voz, levanta-se num salto à procura de cabine telefónica. Porque a família está alarmada. E a dor que sente pode esperar.

Wednesday, November 23, 2011


António permanece sentado. Sem reacção aparente. Tem vontade de chamá-la de volta e correr atrás. Mas o desalento cola-o à cadeira. Como se tivesse desaprendido de andar. Sente-se desleal, triste, perdido. Pesa-lhe o sofrimento que está a causar. Pesa-lhe mais ainda o vazio que começa a sentir. Afinal está a desmerecer o primeiro amor. O único amor até há meia dúzia de dias. “Se ela não tivesse ficado em casa nada disto estava a acontecer…”, justifica em busca de conforto, referindo-se aos dois dias que Maria do Mar tem febre e falta às aulas.  É sempre mais fácil encontrar um bode expiatório quando o coração (nos) atraiçoa. Os homens são peritos no assunto. 
Voltando aos dias da febre,  os dois combinam que António vai na mesma à escola e tira os apontamentos para não se perderem da matéria. Assim acontece. Mas com uma inesperada nuance: a teia de sedução por parte da colega das aulas de português. Atraída pelo ar rufia de Kadhafi,  Cristina retém-no na sala a pretexto de esclarecer uma dúvida. Senhora  de fortes argumentos, entre os escorridos cabelos oxigenados e os generosos seios a saltarem do decote, convida-o a dar uma volta. Continuando a insistir no pretexto. Inexperiente mas já com ronha, ele percebe que as dúvidas, a existirem, não são da parte dela. Ainda equaciona uma desculpa mas a curiosidade é maior do qualquer outro pensamento. À mercê desta mulher bonita, astuta e com piquinho vulgar, a adrenalina dispara-lhe. De pernas bambas e sem encontrar as palavras adequadas, apenas gesticula em sinal de aprovação. 

Tuesday, November 22, 2011



“Precisamos de falar.” A frase, proferida em tom solene e sem sorriso, tem a força de uma sentença. Nunca o tinha visto assim. “Precisamos de falar! Desde quando avisas que precisamos de falar?”, inquire sem fazer uso das palavras. Alvoraçada. O instinto é a maior certeza que a mulher tem. E o instinto diz-lhe que vem aí a conversa mais difícil da sua vida. De coração angustiado, Maria do Mar congela o olhar nos olhos de António, que se baixam atrapalhados. Instala-se o silêncio. Comprido e com ruídos. Interrogações e exclamações da parte dela. Dúvidas e peso de consciência da parte dele. Agora não há como voltar atrás. Pior do que saber é não saber quando se sabe que alguma coisa se passa. Elementar, meu caro Khadafi. Estão sentados na esplanada junto ao liceu Jaime Moniz. Falta meia hora para a primeira aula do dia. Ele prossegue. “Acho que estou a gostar de outra pessoa… Ainda  gosto de ti mas preciso de um tempo…” Um tempo. A clássica desculpa dos homens, mesmo quando sabem que não há tempo que os valha. Melhor dizendo, que as valha. A chavelha experimenta uma espécie de náusea e, sem saber o que dizer, faz que sim com a cabeça. Deixando escapar duas lágrimas gordas, que lhe caem no colo. Mais duas. Outras duas. Por esta não esperava mesmo. O amor da vida dela já não a quer na vida dele. Ou não sabe se quer. Está a gostar de outra pessoa. Mas que outra pessoa? Como se atreve gostar de alguém que não ela? Como não percebeu nada? Estão sempre juntos. Que raio de brincadeira é esta? Hoje nem é o dia das pêtas. Não, não é. E os olhos comprometidos dele dizem que é verdade. O tempo acabou para os dois. Com a alma contorcida de dor, Maria do Mar sai a correr. Não sabe para onde vai. Tão pouco quer saber. Já nada importa. A aula, entretanto a começar, não tem importância. Estudar não tem importância. Nada de nada importa.  Apenas a dor que sente. A maior das dores que alguma vez sentiu.

Monday, November 21, 2011


Passaram dez meses. O ano lectivo está a poucos dias do fim. O ciclo é já um dado adquirido. Estão a fazer dois em um. Não tarda ingressam no ensino secundário. Ao contrário das expectativas de amigos e familiares. Que eram baixas para os mais crédulos. Quase inexistentes para os desconfiados. Isso também os conserva motivados. A cada dia que passa, a cada teste que fazem, a cada nota que recebem. Afinal são adolescentes em plena idade do contra. Quanto pior, melhor. António ajuda-a nas disciplinas de português, inglês e história. Maria do Mar ajuda-o em matemática, ciências e desenho. Não tem sido fácil. Os up grades implicam trabalho e esforço. De um dia para o outro trocam a inércia pela responsalibidade. A ignorância pelo conhecimento. A rua pela sala de aula. Mas, como diz o povo no alto do seu saber, primeiro estranha-se, depois entranha-se. E se, por um lado, perderam em tempo de ócio, por outro, ganharam em privacidade. A hora de recolher estendeu-se e o mundo deixou de confinar-se à baía de Câmara de Lobos. Entre uma ou outra gazeta, um ou outro feriado, não faltam oportunidades para as escapadelas românticas. O parque de Santa Catarina, um esplêndido jardim com vista sob a enseada do Funchal, é o reduto preferido para passeios a dois e outras intimidades. Continuam apaixonados. E estão a crescer. O futuro configura-se mais nítido. Os sonhos de cada um - com muitos pontos de interseccção -  têm agora pernas mais atléticas para andar. Correr até, se for preciso.

Thursday, November 17, 2011

      Maria do Mar está de volta à escola. Decide quase por arrastamento. A motivação é lírica: estar mais perto do amor. António vai estudar em regime pós-laboral por insistência da irmã. Lúcia é secretária de direcção num organismo público. Quando o pai desaparece (o sentido é  literal visto nunca mais ter aparecido e ninguém saber que destino levou), começa a trabalhar como empregada interna na casa de uma abastada família de médicos. Não há anjo da guarda que a poupe da responsabilidade do sustento familiar. A mãe, iletrada e de coração esmigalhado, é incapaz de o fazer. Cabe então à primogénita, na altura com dezasseis anos, assumir as rédeas. Não é pêra doce mas faz do contratempo uma oportunidade. Com o incentivo dos patrões - e porque tem  planos de vida menos limitados - inscreve-se nas unidades capitalizáveis e conclui o liceu. Hoje é apontada como a betinha do sítio e prepara-se para alugar um apartamento xptz no Funchal a meias com o namorado. Não quer sair, no entanto, sem deixar a casa arrumada. Que é como quem diz, encarrilhar o irmão. Há anos que usa de fortes argumentos para o convencer. Consegue finalmente. As despesas são por conta dela até Kadhafi ter uma idade mais empregável. Fica então decidido. O casalinho de chavelhas retoma os estudos. Vão juntos, frequentam a mesma classe e voltam juntos no penúltimo autocarro. Maria do Mar estranha a responsabilidade e a falta de tempo e liberdade para cirandar pela rua. Ela não sabe mas a seu tempo saberá, são menos os custos que os benefícios do novo desafio.



Monday, November 14, 2011

      Hoje é sábado, dia de limpar a casa na casa da família “garanhão”. Todos os dias se limpa mas ao sábado limpa-se mais. À excepção das crianças, os que estão em casa ajudam na empreitada. Maria do Mar tem por sua conta o quarto que divide com os irmãos mais velhos. Conceição trata do quarto dos mais novos.  Rui está incumbido da sala e do corredor. Eugénia limpa a cozinha. Teresa, a casa de banho. Emanuel varre o quintal e lava-o de mangueira, depois de regar as plantas. A mãe orienta as crianças e prepara o almoço. As limpezas fazem-se quase sempre ao som da rádio. Hoje Maria do Amparo acordou triste, melancólica e com vontade de ouvir Amália. Mesmo a contra gosto dos filhos põe o disco de vinil a tocar e esganiça por cima da voz da fadista. “Foi por vontade de Deus que eu vivo nesta ansiedade, que todos os ais são meus…” Canta para espantar a mágoa que sente. A noite de ontem foi feia à custa de uma troca de palavras feias com o marido. A paciência esgota-se-lhe. É bom homem mas o hábito maldito da bebida quase deita tudo a perder. “Que raio de vício que só serve p’a m’azucrinar a cabeça…”, desabafa entre dentes, quando se perde da letra do fado, ainda a matutar nas ofensas trocadas. Palavras rematadas com violência, apesar de não sentidas. Palavras que puxam palavras num  braço de ferro absurdo. A páginas tantas, a ver quem magoa mais. Ele, por trazer vinho martelado no bucho e estupidez na cabeça. Ela, por trazer amargura no coração de o ver chegar assim a casa. Ainda que seja uma vez por outra.

Saturday, November 12, 2011


      Olham nos olhos um do outro à procura de aquietação. Os dois cúmplices, tímidos, agitados. Trocam um beijo fugaz e poucas palavras. Sentam-se no sofá e numa espécie de reflexo condicionado António liga a televisão. A voz histriónica da Júlia Pinheiro serve o propósito de descomprimir o ambiente. Pinta o silêncio, pelo menos. Hoje mais longo e bastante mais incómodo. Maria do Mar agarra o momento. Afaga-lhe os cabelos e vai à procura de um beijo. Mais dengoso do que o primeiro. As mãos dele envoltam-se na cintura dela e, como se tivessem vontade própria, escalam em direcção aos seios endurecidos. Quebra-se o gelo. Ele despe-a desajeitado. Ela despe-o com a mesmíssima falta de jeito. Sem querer, estão também despidos do atrevimento que os caracteriza. Nenhum ousa olhar o corpo nú do outro. António leva-a pela mão ao quarto minúsculo e à cama minúscula onde se deitam. Inflamados de excitação, roçam os corpos - ainda há pouco de criança - em movimentos frenéticos. Sabendo que tão cedo não gozarão de uma oportunidade destas. E como se quisessem pôr em dia o tempo que estiveram à espera e o tempo que hão-de esperar de novo. Com urgência de chegar ao fim. Porque a primeira vez é quase como se fosse a última. Mas apesar da explícita tensão sexual, os jovens amantes não se esquecem do preservativo e, já pouco intimidados, colocam-no a meias (entre risinhos). O corpo dele volta a juntar-se ao dela. O sexo dele procura o dela. Entra nela, paulatinamente. Puro instinto.  Como o recém nascido encontra o seio materno. António e Maria do Mar encontram-se.

Friday, November 11, 2011



     O dia tão aguardado chega. Kadhafi acorda bem disposto.  Levanta-se a cantarolar e vai certificar se a mãe e o irmão sempre foram à consulta. Apanha-os ainda de saída. Pede um troquinho e despede-se aliviado. Ufa. Mais excitado do que nervoso. Bebe um copo de leite e come uma fatia do bolo que sobrou do aniversário da irmã. Logo de seguida toma duche, faz a barba (que é como quem diz rapa meia dúzia de pêlos a jogar à bisca), penteia os cabelos com as mãos (como é uso e costume), põe os calções azuís e a t-shirt branca. Concluída a produção, sai em direcção à farmácia. Agora sim, está nervoso. E abarrotado de pudor. É a sua estreia como homem. E tem vergonha de pedir os preservativos. Já os devia ter comprado no hipermercado. Deixou passar a oportunidade e agora não tem tempo de lá ir. Não há como dar a volta à coisa. São os dois muito jovens e nem um nem outro tem onde cair morto. Uma gravidez está fora de questão. Completamente. Por isso tem mais é que ganhar coragem e comprar os preservativos. Assim é. Na farmácia estão apenas dois desconhecidos e a operação corre com normalidade.
      De volta a casa, outro embaraço se lhe ocorre. E se no momento nada acontece? Enfim, isto de fazer sexo tem muito que se diga. Sobretudo, se é a primeira vez. Inexperiência mais pudor mais receio é uma soma alta. Ainda que a contrabalançar com paixão mais desejo mais curiosidade. A divagar neste caldo de emoções, a campaínha toca. Maria do Mar acaba de chegar.