Wednesday, August 12, 2015



Esta flôr destaca-se. Tem uma simplicidade comovente. E um cheiro singular. Inebriante. Mas ainda não é amor. E tão pouco a ideia que todos fazem do amor. Que é bastante melhor do que o amor.
Maria do Mar está na fase borboleta. As borboletas desconhecem o amor. Apenas sabem de encantamento. 
Maria do Mar sabe também que esta flôr beija quase do tamanho de um abraço. Basta-lhe. 

Thursday, July 23, 2015


Por agora, o importante é sentir. Maria do Mar sabe que para ser feliz precisa de abrir mão das expectativas. Essas cabras manhosas. Sabe, mais do que nunca, que cada dia é um dia. E pouco vale o dia anterior. E menos ainda o que se segue.
Torna-se multipolar, sendo tantas pessoas ao mesmo tempo. Menina. Mulher. Puta. Recatada. Misteriosa. Livro aberto. 
Vive assim semanas e semanas de vida desprendida. Sem prestar contas a quem quer que seja. Nem a ela própria. Porque de momento o mais que pode fazer é sentir. E deixar fluir sem contornos nem embaraços. Deixar fluir como se o tempo não acabasse. Deixar fluir. Sem permitir que a dor exista.

Tuesday, July 14, 2015




“Tenha cuidado com a tristeza, é um vício.” Flaubert tem razão. Maria do Mar sabe que é assim. E segue a vida sem os nós do passado. A não ser uma ou outra memória sorrateira. Foi breve o período de luto. Doído. Confuso. Ensopado de lágrimas. Indagado. Mas breve.
Um dia, sem pré-aviso, sai do casulo. Como a borboleta. E dá o ar da sua graça. Mais desajeitada do que graciosa. Sem saber em que flores poisar. Em pleno estado de alucinação, esvoaça por entre umas e outras. O importante é perceber que sabe voar. 
E percebe.

Sunday, May 17, 2015



Os estados de graça mais cedo ou mais tarde perdem a graça. O que já foi leve torna-se pesado. O que já próximo, torna-se distante.
Maria do Mar e Miguel separam-se. O amor chega ao fim. Não sobrevive ao quotidiano. E ao resto. A par do tanto que os une, outro tanto os separa. 
Afinal o amor acaba. Por maior que seja. Por infinito que pareça. No final, o amor acaba. No seu lugar fica outro amor. Que é misto de ternura, saudade, mágoa. E nostalgia do amor que faltou viver. 

Wednesday, November 19, 2014



Os convidados acabam de sair. Miguel está derreado mas exultante de orgulho e felicidade. A inauguração correu bastante além das expectativas. Três peças vendidas, outras três encomendadas. Contas feitas, o próximo ano vai ser desafogado. O que lhe dá margem de manobra – que é como quem diz, tempo e dinheiro - até apresentar novos projectos.
É hora de festejar a dois. Um último brinde antes do jantar. Olhos nos olhos. Porque os olhos dele e os olhos dela se interceptam. Com a urgência de quem pressente uma noite de amor. Olhos nos olhos. Porque não se  brinda sem contacto visual. Olhos nos olhos. Porque se assim não fôr são sete anos de mau sexo. Diz a crença do povo. E pelo sim, pelo não, o melhor é não contrariar.
A mesa preferida do restaurante preferido aguarda-os. Com a placa a dizer reservado, a toalha de pano crú bordado, os pratos Vista Alegre, os talheres, os copos do Ikea. E o vaso de flores singelas em tons laranja a amornar o ambiente. Fica no canto junto à janela que deixa ver o rio.
Sentam-se e, antes de olharem as ementas, perdem-se na paisagem. Estão enamorados. Mais ainda do que alguma vez. 

Tuesday, November 04, 2014



Só agora repara. São cavalos marinhos! Cavalos marinhos a três dimensões feitos de sucata de cobre. Enormes. Coloridos. Imponentes. Suspensos por um fio que os faz mover ligeiramente, criando o  efeito de coreografia. E a cada movimento, consoante a incidência de luz, vão assumindo as cores uns dos outros. Tal como os verdadeiros, mimetizam. Um festim para os olhos.
Maria do Mar está encantada. Não apenas pelo que vê, que por si só é tanto. Mas pelo significado (oculto) dos signos escolhidos por Miguel. A sua paixão por cavalos marinhos vem dos tempos de gaiata. De quando se esgueirava mar adentro à procura deles. Porque os vira num documentário e se perdera de fascínio.
Agora percebe o secretismo. Há meses que lhe era interdita a entrada no atelier. Uma surpresa. E que surpresa… Explica tanto mais que todas as palavras que têm sido ditas, juntando às outras que têm ficado por dizer.