Wednesday, March 23, 2011
Ainda olhei à volta a ver se a cena estava a ser filmada. Com a proliferação de programas televisivos de terceiro escalão nunca se sabe... Não vi câmara nenhuma. E como se nada fosse, o parvalhão com pinta de beto xoninha insiste na sua implicância com o mundo e arredores. Passa o semáforo fechado aos peões e assenta uma valente palmada no homem que segue de mota. Juro que naquele momento me apetece apressar o passo e desfazê-lo ao soco. Deveras surreal. Não satisfeito ainda, três metros à frente, quase derruba uma velhota com outro encontrão. E olha-a nos olhos com a provocação de quem perdeu os mínimos. Se alguma vez os teve…
Entretanto, o número de passantes adensa e perco-o de vista. “Ao menos isso.”, concluo de mim para mim. Serve de pouco. Perco-o de vista mas segue comigo em pensamento. Como ousa aquele projecto de ser importunar quem passa? Que raio de vida infeliz a dele! Paz à sua existência…
Tuesday, February 15, 2011
Também te adoro, mano. E estou grata pela oportunidade que me dás de dizer que te adoro.
É-me difícil, sabes? Sou até física, expressiva e descritiva. Mas tenho uma dificuldade intrínseca de expressar o amor por aqueles que amo. E mais ainda pelos que não amo. Desculpa o pleonasmo e a chalaça. O disparate e as figuras de estilo confortam-me quando estou pouco à vontade.
De volta à dificuldade de expressar o amor por aqueles que amo, não compreendo o bloqueio. A sério que não o compreendo. Mas ele existe mesmo à revelia da minha compreensão. E atormenta-me uma vez ou outra. Sobretudo quando reprimo gestos de carinho à mamã e ao papá. E calo o meu amor por eles, por não saber como dizer-lhes. Apesar de incomensurável. Como sabes. E eles também.
Tuesday, January 25, 2011
Estou num daqueles dias em que não estou bem nem mal. Estou uma espécie de assim-assim. A fazer pandant com a condição lusitana. E digo-vos que é uma grande merda este estado de alma. Não me identifico absolutamente nada. Tudo no geral e nada em particular me entedia. Não sei se é da lua. Mas não me parece. Até porque hoje a dita está cheia. E diz quem é dado às coisas dos astros e afins que quando assim é, nós – em especial nós, as gajas – ficamos mais entusiasmadas…
Mas não. Não há entusiasmo à vista. Muito antes pelo contrário. O que vale é que vai sobrando assunto, ou falta dele, para escrever. É que isto da escrita é doloroso que se farta. Gosto de escrever. Mas gosto menos quando assumo o compromisso de o fazer. Talvez por isso tenho fugido das publicações como o Diabo da cruz. O que acaba por ser um paradoxo infernal. É que, se por um lado me apraz publicar, por outro, gosto pouco que me digam sobre o que escrever. Pior ainda, tenho verdadeira aversão às datas de entrega. Atordoam-me a criatividade. É de tal forma que me perco do objectivo quase sempre. Enfim… Gostava de ser menos divagarosa (acabei de inventar esta) e possuir um raciocínio mais matemático. Gostava mesmo. De tal forma que nas aulas de ioga, nos momentos de introspecção, quando a luz toma conta da minha vontade, é isso que peço: um raciocínio mais matemático.
Thursday, January 13, 2011
Monday, January 03, 2011
Wednesday, December 15, 2010
Está um frio surreal. Não vale a pena contra-argumentar com os países nórdicos. A sério, é uma comparação desleal. Venho da Madeira. Quase que me atrevo a dizer, uma ilha tropical. Vivi até ao refilar da idade adulta num clima ameno. Quando cheguei a Lisboa pela primeira vez fui derrubada pela primeira gripe marada da minha vida. Levou-me à cama dois ou três dias e só acalmou à força de antibiótico e outros venenos. Eu que fazia gala de não tomar medicamentos! Foi no início de Outubro de há mais de vinte anos. Em pleno Outono. Para mim era como se fosse Inverno. E dos agrestes. Desde então ganhei carapaça. Mas hoje tenho frio. Não conto ficar doente como então. Até porque estou a entrar de férias e não teria graça. Muito frio. Tanto como no dia que cheguei a Lisboa. Tanto frio que sinto o nariz apalhaçado e os mamilos doridos. Tanto frio que de repente as minhas mãos envelheceram anos a fio. Tanto frio que o meu cérebro congelou e na frase anterior fez-me rimar uma rima tola. Não foi de propósito. Abomino rimas infantis. Mas foi de propósito que a deixei ficar. Para que percebam do frio que tenho.
Tuesday, December 14, 2010
Estou de novo cara a cara com a folha branca. Assim de repente nada me ocorre contar ou dizer. Estou basicamente a fazer uso da folha branca, agora com alguns caracteres pretos, para fins terapêuticos. Sinto-me um pouco triste. Por nada em particular. Por tudo em geral. Talvez porque em final de ano é tempo de balancear a minha vida. Talvez porque as expectativas que trazia me pareçam agora distantes. Talvez porque a crise que assola o mundo, o país e a cidade onde vivo não me deixe indiferente. Não a crise em si mas a atitude perante ela.
Provavelmente, e o mais certo, é estar neste momento a conjugar disparates. Apenas porque me apetece ocupar a mente com algum raciocínio. Apenas porque disso poderá depender a minha sanidade mental.
O engraçado é que a folha branca fica aos poucos e poucos matizada de preto. Não permite que me dê brancas. Pelo contrário, inspira-me. Tem a margem que preciso para espreguiçar o estado de alma. À partida as ideias são pouco claras mas assim que começo a teclar vêm à superfície. É comum apanharem-me desprevenida…
Friday, December 03, 2010
Conheceram-se em reportagem. Ele fotógrafo. Ela jornalista. A química aconteceu quase de imediato. Ambos madeirenses a viver em Lisboa. Ele não sabia dela. Ela não sabia dele. Iam rumo ao sul. Ao serviço de uma revista.
A caminho, ela pergunta: “Faltam muitos quil(h)ómetros para chegarmos?” O sotaque fá-lo clicar. “És madeirense?”, indaga com surpresa. Descobriram assim que eram conterrâneos. Um pouco mais tarde, nesse ou no dia a seguir, descobriram algo mais. Ele percebeu primeiro. Perdido no azul dos olhos dela. Ela rendeu-se. Perdida na sexualidade da voz dele. Foi um encontro especial. Tudo conjugava a favor. O sol, o mar, o spa do hotel, o vinho branco, o tinto, a leveza de ambos.
De regresso ao quotidiano, o romance ainda bebé sucumbiu. Os compromissos de um e a imaturidade de outro ditaram o fim da história. Ficaram resquícios de paixão. Passados seis anos, voltam a encontrar-se. A chama, quase extinta, reacendeu. É que era para ser. O fado assim destinara. Desconhece-se o the end. A história continua…
Sunday, November 28, 2010
Eu sou assim. Não é quando posso. É quando a cabeça quer. Ela é que manda. Definitivamente. Quando estou folgada e tenho o tempo todo não me apetece escrever. Ou apetece-me menos.
As ideias são do contra. Não afluem. Nem fluem. Enfim…
Gosto realmente de escrever quando tenho em paralelo uma série de outras coisas supostamente mais importantes para fazer. Quando outros compromissos se sobrepõem em matéria de urgência. Nesses momentos, dissipo as dúvidas. Não que as tenha já. A minha arte é a escrita. Não me paga as contas. Mas faz-me festinhas à alma.
Não escrevo a metro. Quando me colocam um número de caracteres em perspectiva atrofio logo. Não aprecio que me digam o tamanho da escrita que faço. Nem para mais nem para menos. Escrevo até passar a ideia que se me atravessa. Por norma sou sucinta. Tenho alergia a floreados. Na minha opinião, são um péssimo disfarce de quem tem pouco ou nada a dizer.
Thursday, November 25, 2010
Não me sinto habilitada a fazer o luto pela avó Ainim. Francisca de sua graça. Não sei quando ou por que razão surgiu o petit nom. Sei é que todos os que lhe eram queridos a tratavam assim.
Não me sinto habilitada a fazer o luto pela avó Ainim. Recusei-me fazê-lo então. Não me parece que o faça alguma vez. Por ela continuo a ter um amor tão grande, tão grande, que não cabe neste texto. Não caberia num livro. Nem mesmo numa mega produção galardoada.
A minha avó morreu cheia de vida. O paradoxo talvez explique a renitência em aceitar que me deixou. Eu tinha quinze anos e estava tudo menos preparada para perdê-la. Fiquei desesperada. Quando a vi de boca puxada ao lado pela maldita trombose fugi. Em vez de abraçá-la, fugi. Fechei-me na casa de banho. Histérica. Ufa, a dor ainda me atravessa o peito. Por vezes sara. Por vezes sangra. Mas a psicanálise deixo para depois. Para as instâncias próprias.
Não perdi completamente a avó Ainim. Tenho-a de forma diferente. Divido com ela os momentos bons. Os maus também. Até os assim-assim. Continua tão presente na minha existência, que quase lhe sinto o Anaiis da Cacherel.
E tão ausente, que me fazem falta tantas coisas banais. Os bracinhos flácidos e macios que eu apalpava vezes sem conta em jeito de mimo. O sumo de laranja que nas manhãs de inverno me levava à cama com uma “pontinha” de açúcar e muitas palavras doces. As repreensões pouco veementes que eu só reconhecia porque ao invés de Gracinha me chamava de Graça Maria. As cantorias que improvisava sempre que se embrenhava nas lides domésticas. As idas à missa seguidas de almoço fora onde me deixavam escolher bife, batatas fritas e sumol de ananás. A cumplicidade feita de muitos serões no sofá a ler-lhe as legendas do Dallas. As frases tão dela como “a menina não tem querer” ou “isto não é brincos para a menina”.
Não estou habilitada a fazer o luto da avó Ainim. Nem quero já. Gostava apenas que doesse menos a falta que ela faz.
Wednesday, November 24, 2010
Detesto ser bafejada pelo fumo dos outros. Fumei durante quinze anos. Tempo suficiente para perceber que sou adversa ao fumo e às pessoas que fumam para cima de mim.
O clique aconteceu quando a pneumologista me encostou à situação: “ou fumas ou vives.” O baque foi tal que nem liguei ao facto da estúpida me tratar por tu como se fosse amiga lá de casa. Essa modinha tola de alguns doutorzinhos falarem de cima com os utentes é realmente uma coisa que me transcende. Faz-me ranger os dentes de irritação. Como se não bastasse o tom condescendente, ainda tratam por tu pessoas que os podiam ter parido. Por exemplo. Esquecem eles que o respeito é uma coisa linda de usar.
Voltando à consulta e à sentença de fumadora condenada por um início de enfizema pulmonar,
a primeira questão que me coloquei foi esta: “Como vou escrever o raio do texto?” Trabalhava na RTP Madeira. Tinha feito a reportagem no terreno. Não me lembro já do que se tratava. Seguiu-se a consulta. Seguia-se a redacção e edição da peça. Mas, como os cãezinhos de Pavlov salivavam ao som da campaínha, eu condicionara a escrita ao acto de fumar. Só começava um texto depois de acender o cigarro. Mesmo assim, e absolutamente convencida que tinha de mudar de carreira, mal saí da clínica espezinhei o maço de Marlboro Lights.
Quanto ao texto, foi complicado. Muito complicado. Não consegui apanhar o ângulo certo. Escrevi e apaguei vezes sem conta. Detestei o resultado final. Fui repreendida pelo chefe de redacção pela demora. E só graças ao cross do colega de edição a peça entrou no jornal da noite. Fiquei a milímetros de um ataque de pânico. Assim começou a minha luta contra o fumo. Um processo interrompido algumas vezes. Com as desculpas mais rotas do Planeta. Foi deveras doloroso. Mas valeu bem a pena. Num dos pratos da balança pesa a intolerância com os fumadores à minha volta. No outro, e com um peso bem mais significativo, está a saúde dos meus pulmões. Apurado o custo de oportunidade, o fumo perdeu. Sem margem para hesitações.
Monday, November 22, 2010
Queda para o trambolhão
Desde cedo percebi a desastrada que estava predestinada a ser. A confirmação tive-a no liceu. A partir daí tenho somado um rol de disparates sem conta. Tudo devido à minha incontinência verbal.
Voltando ao liceu, tinha um professor de inglês que mal continha o olhar lascivo na minha direcção. Incapaz de disfarçar o entusiasmo, mandava-me ao quadro o dobro da vezes que seriam razoáveis. Olhava-me sobretudo para o peito que, já na altura, resvalava para o generoso. Não sei se estou ou não a ficcionar mas quase juro que o coitado até deixava escapar umas gotas de suor do rosto ruborescido.
Durante a frequência destas aulas, conheci uma rapariga com a qual empatizei. Quando já éramos quase amigas, descobri que era filha do dito cujo. Soube-o da forma mais inconveniente possível. Perguntou-me ela quem me dava aulas de inglês. Na ignorância, respondi: “Um porco gordo que baba sempre que me vê. E não pára de me olhar para as mamas. É aquele da barbicha à tarado, o professor X.”
Tão entusiasmada estava na minha descrição que não topei a mudança de fisionomia da minha quase amiga. Só reparei efectivamente quando, com alguma rispidez na voz, me disse: “É o meu pai.”
Naquele momento, gelei. O tempo parou. As palavras secaram-se-me. Consegui, ao fim de uns segundos agoniantes, esboçar uma espécie de pedido de desculpa. Atabalhoada saíu-me apenas: “ Upsss... Não sabia que era teu pai.”
Excusado será dizer-vos que a nossa amizade, ainda em fase embrionária, ficou por ali. Foi o primeiro deslize de que tenho memória. Achei que seria o último. Mas, na verdade, a minha queda para o trambolhão é já um traço de personalidade. Nada a fazer.
Thursday, November 18, 2010
Rosa ou vermelho? Rosa.
Pergunto-me vezes sem conta se já não está na hora de preferir vermelho. A resposta é sempre negativa. A favor do rosa. Talvez por achar vermelho cor de “senhora”. Talvez porque sempre que penso em vermelho, me vêm à ideia o tailleur e as unhas da minha mãe. Talvez por considerar vermelho rosa maduro. Talvez por temer a maturidade que reconheço no vermelho. O facto é que entre o vermelho e o rosa, o rosa vence. Mas não tenho nada contra o vermelho. Até gosto. Só não tanto quanto ao rosa.
O que não gosto mesmo é de castanho. Sinto-me triste de castanho. Aprecio numa ou outra pessoa. Em mim é que não. A minha avó, adepta fervorosa de cores garridas, costumava dizer “castanho é cor de velha”. Ela que tanto medo tinha de envelhecer… Herdei-lhe isso. A aversão ao castanho. E o horror ao envelhecimento.
Monday, November 15, 2010
Sou excessiva. Amo muito as pessoas que amo. Amo mesmo demais as pessoas que amo. Só não odeio demais as pessoas que odeio porque não odeio de todo. Mas as pessoas de quem não gosto, não gosto mesmo. Já não tenho idade nem paciência para contornar. Não gosto e acabou. Não há lugar na minha vida para as pessoas de quem não gosto. E quando não gosto, não gosto porquê? O principal motivo é não gostarem de mim. Porque gostar implica dois interlocutores, no mínimo. Quando um deles não dá, o outro não pode dar de volta. Não vou ao encontro de quem não vem ao meu. Já fui. Não vou mais. Simplesmente não vale a pena. Sobretudo por uma questão de auto-estima. E poupança de energia.
Friday, November 12, 2010
Wednesday, November 10, 2010
E porque uma nova semana se avizinha, e porque prometi, e porque nada de mais interessante me ocorre, estou cá de novo. A escrever. Ainda não sei sobre o quê. Juro que estou em branco. De frente para a folha branca do word.
Ups, ocorreu-me partilhar uma indignação. Há dias, vi num vídeo duas pessoas a serem espancadas em plena Rua de Santa Catarina, no coração do Porto. Tudo porque se encontravam numa troca de afectos libidinosa. E uns seres de mentes tacanhas, não satisfeitos com uma simples chamada de atenção, largaram de arrear nos ditos amantes. É que o acto sexual, implícito (já que ambos se encontravam vestidos e de genitais resguardados), incomodava muita gente. Estranho é que os estalos e os pontapés não tenham surtido o mesmo efeito. Quase impávidos e pouco serenos (mas a favor dos algozes), os passantes testemunhavam o julgamento popular como se fosse tudo muito razoável. Qual tempo da Inquisição, qual quê… A moral e os bons costumes têm mais é que ser defendidos, ainda que a soco e pontapé. Sei lá, deve ter sido mais ou menos isso que pensaram. Esqueceram-se, porém, que a violência é um quadro bem mais reprovável do que sexo em praça pública.
Fiquei em estado de choque com o que vi. Juro que me sinto ameaçada. Psicológica e fisicamente. Como se vivesse num escuso país de Leste, paredes meias com as máfias de rua.
Tuesday, November 09, 2010
Fodam-se mas é… Desculpem os maus modos mas estou absolutamente cansada de ouvir “estou fodido(a)”. E sem que a exclamação implique sexo. Ainda se fosse…
“Estou fodido” é proferido vezes sem conta de forma ligeira, querendo apenas dizer estou lixado, irritado, furioso. E, parecendo que não, a maior parte das vezes “estou fodido(a)” significa simplesmente o contrário do que se diz. É como que desabafar “estou com ganas de foder” ou “estou a precisar de uma contra a parede”.
Não querendo divagar sobre a intimidade dos outros, sobretudo a de quem não conheço, atrevo-me a conjecturar que a razão primeira de todas as irritações, ou quase todas (vá lá), é a falta de sexo. Não é à toa que as pessoas mais azedas são as menos resolvidas a esse nível. Ou não têm companhia de cama ou a que têm apenas faz uso dela para dormir. É triste mas assim acontece muitas vezes.
Wednesday, November 03, 2010
Ah pois é… Estou a vislumbrar uma vontadezinha ténue de escrever. Na verdade, não sei se efectivamente a tenho. O que estou, isso sim, é a mandar comandos ao cérebro a fim de voltar a ter vontade de fazê-lo. É tempo de tornar a pôr as ideias em dia. Além disso, a pressão tem sido muita. Muita, muita não. Já estou a divagar… Tomara eu. Não tenho um universo de leitores tão significativo. Tem sido alguma.
Ainda ontem celebrava a nova contratação do Pedro, quando de repente os meus textos vieram à conversa. A ausência deles, mais precisamente. Foi num agradável afther work, entre o copo de vinho e o non sense da descompressão, que os meus amigos me repreenderam.
A Patrícia classifica de escandalosa a inércia em que me tenho deixado estar. Diz ela que o mais importante, o talento, está do meu lado e que só me falta meter mãos à obra. Que é como quem diz, puxar pela cabeça e fazer os dedos ao teclado. O Pedro não poupa adjectivos superlativos à forma e estilo das minhas redacções. O que eles não entendem é que, no que me diz respeito, isto de escrever não é de encomenda. É mais uma coisa de combustão espontânea. O certo é que ambos, cada um a seu jeito, me fizeram perceber que tenho perdido tempo e caracteres este tempo todo.
Se sempre escrevi sobre quase tudo por que razão passei a escrever quase nada? Eis o mote da reflexão… E porque sem objectivos não há disciplina, assumo convosco o compromisso de “postar” um texto por semana. No mínimo. Ainda que tenha de recorrer a substâncias recreativas… Ei, estou a brincar. Naturalmente. Agora sou uma ex-tóxico. Lol
Sunday, July 18, 2010
Wednesday, July 07, 2010
Tuesday, June 08, 2010
Monday, May 10, 2010
Wednesday, March 31, 2010
Que puta de idade! Que terramoto interior! A partir de agora já nada é como dantes. E nem venha o Paco embandeirar em arco com a ternura dos 40. Quando a imortalidade cai de quatro e começamos a dar de caras com besta da morte, tudo muda. É um duro revés. Não sei se é coincidência ou não, mas a insónia passou a ser companhia assídua das minhas noites. De repente, a cama tornou-se um berço de desespero. Durmo apenas nos intervalos do flashback (involuntário) à minha vida. As ideias afluem com tal desalinho e violência que um dia destes perco o juizo. A sério! Não está fácil abrir mão da condição de menina e moça…
Tuesday, March 30, 2010
Thursday, March 25, 2010
Wednesday, March 24, 2010
Não acredito no amor eterno. Não acredito no amor romântico e idílico. Acredito sim no amor que se renova. A cada dia que passa. A cada gesto que acontece. A cada diálogo que se invente. A cada foda que se dê. E amar só faz sentido com tesão. O desejo é um dado quase adquirido nos dois primeiros anos de convivência. Mas é também uma excepção daí para a frente. A não ser que a líbido seja ateada. Dia após dia. Não nos podemos deitar à sombra do destino. Fiquei grata pela descoberta.
É comum julgar que connosco é diferente. Mas por que raios haveria de ser? Na minha experiência de ser apaixonado - e muitas vezes defraudado - garanto-vos: sem renovação não há paixão. Não há amor que nos valha. E renovação pode ser um novo look, uma expêriencia erótica mais ousada, uma operação estética, um caso extra-conjugal, uma viagem ou mil outras coisas.
Tuesday, March 23, 2010
Hoje está um dia taciturno. Chove e a noite chegou com mais pressa do que é costume. O dia ideal para focar-me no intento de escrever. Até agora, ainda não disse nada de novo. Apenas justifico. Uma tendência minha, aliás: justificar, contextualizar, entender… Sou tão Calimero que mete dó. Como se tudo tivesse que ter um enquadramento lógico, legal ou moral. Super irritante. É uma especie de censor que me faz sentir culpa very often. Não gosto disto. Se esta nuvem não me perseguisse seria mais feliz. Costumo dizer que a puta da educação me persegue. E castra. Enfim… Vivo em constante dualidade: entre o que faço e o que me apetece fazer. Sinto que está na hora de implodir muralhas. Tenho quarenta anos. Não conto viver outros quarenta. E quero abraçar os próximos quinze com intensidade. Sem culpa. Sou curiosa e adepta fervorosa de novos desafios. Apetece-me ousar...
Sunday, February 28, 2010
Nestas "núpcias com a natureza", a evasão é realmente possível. Num silêncio, diferente de todos os silêncios escutados nas cidades, ouve-se harmonia.
A Quinta do Chocalhinho fica na aldeia da Bemposta, a dois quilómetros de Odemira. Mesmo no coração do sudoeste alentejano. Apenas a quinze minutos das praias da Zambujeira do Mar e de Vila Nova de Milfontes. Tão perto e tão longe. Aqui, ouve-se o cuco e o chilrear de outros pássaros, o zumbir das abelhas, o quachar das rãs e dos sapos... E, outrora, também se ouviu o chocalhar das ovelhas (por isso o nome Quinta do Chocalhinho). Som perpetuado nos guizos que acompanham as chaves dos hóspedes.
Antes de recuperar a herdade adquirida em 1942 pelo avô, de quem é homónimo, Luís Mendonça Freitas viveu em Macau. Esteve lá cerca de quinze anos. Há três, ele e a mulher, Margarida, decidiram trocar o buliço da metrópole pela candura do campo. Luís está intimamente ligado aeste espaço idílico. "É uma referência afectiva bastante forte. Não há como contornar", justifica. Até aos dez anos, enquanto o avô foi vivo, passou aqui muito tempo na companhia dele. E, apesar de ter feito poiso em dezassete cidades diferentes, este é e sempre foi o Sítio. Certeza que o levou a investir na recuperação da propriedade e transformá-la numa quinta de agroturismo. Manteve-se a área, a traça original, as paredes xisto e a calçada de pedra. O lagar de azeite e a casa dos caseiros deram lugar a dez quartos e duas prazentosas salas de estar, onde se combina mobiliário rústico com peça vindas de Macau.
A herdade, com cerca de setenta hectares, tem uma piscina de água salgada e um campo de ténis. E ainda um reduto encantado de sabores e aromas que oferece aos visitantes uma autêntica viagem dos sentidos: a horta biológica. Com couves, alfaces, cebolas, alecrim, alfazema, coentros, uvas, romãs e maçãs. É também um espaço didáctico, onde é permitido ajudar na rega e cultivo, colher produtos e até, para os mais curiosos, desfrutar de alguns briefings sobre a arte de cuidar a terra e seus frutos.
O largo junto à casa principal, a casa que era a do avô e que hoje é a sua, é o lugar de eleição de Luís. Um extenso largo com vista para a horta deitada aos pés dos montes de sobreiros e oliveiras centenárias. E colinas prenhas de trilhos caminhados e por caminhar até à lagoa, à barragem ou simplesmente sem destino marcado. É para aqui que vem nos seus momentos de contemplação e recolhimento. E encontro com as memórias. Ainda se lembra das desfolhadas entoadas pelas mulheres que apanhavam o milho, dos muitos passeios feitos pela mão do avô, dos agricultores alinhados em fila nos dias de receber os pagamentos. Memórias destas e muitas outras coisas que as palavras não traduzem. E só as emoções alcançam.
Friday, February 26, 2010
Lugar tranquilo que aquieta os sentidos. Para os desassossegar. Tranquilamente. Ninguém passa por La Comarcal por acaso. “O universo conspira” para que tal aconteça. Só pode...
La Parra, a 60 kms de Badajoz, é um lugar bucólico, com cerca de 1500 habitantes. Com gente serena e atmosfera tranquila. Tesouro guardado por entre pastos e oliveiras, onde a calma espreita no dobrar de cada esquina. Na melodia das aves, nas portas deixadas abertas pelos moradores casa sim, casa não, no vagar dos gestos, nos diálogos murmurados de quem vive um compasso de tempo que não é o nosso.
Foi neste lugar, onde nos chamam pelo nome próprio, que Lúcia Dominguín e Carlos Tristancho edificaram La Comarcal, um surpreendente hotel para viajantes. Casados há mais de vinte anos, os dois - artistas de vocação e carreira - abriram mão da movida de Madrid pela tranquilidade rural de Badajoz. Aqui se apaixonaram pela antiga casa senhorial do secúlo XVI, que já albergou o serviço comarcal de trigo (daí o nome La Comarcal). Há cerca de três anos, investiram três milhões de euros e meteram mãos à obra sem macular a traça original. Das longas discussões criativas e do sentido estético de ambos, surge a harmonia de um espaço de sonho.
Dois mil metros quadrados é a área total de La Comarcal. A fachada, discreta, não deixa advinhar a área que se expande depois de passar o portão de inspiração árabe.
Ao entrar, paredes meias com a recepção, fica a sala de degustação que exibe nas prateleiras preciosas caixinhas de madeira recheadas com sabores da Estremadura, como marmelada de figos, mel de eucalipto, patés, vinhos e azeites diversos.
Sobem-se alguns degraus e temos pequenos recantos de bem estar. É também o acesso a três das seis suites que constituem o hotel. Um pouco mais acima, estende-se a principal sala de refeições, que outrora foi lugar das cavalariças da casa. Os solos de pedra, originais, com desníveis e irregularidades, a que se adaptaram as cadeiras e mesas, marcam a personalidade do espaço. Os lavatórios da casa de banho comum, aproveitados das antigas mangedoras dos animais, são também sui generis. O restaurante dispõe ainda de pequenas salas para refeiçoes mais intimistas, onde não faltam sofás e pufs para os comensais desfrutarem da tão abençoada sesta depois de apreciarem as delicias gastronómicas da região. Pratos típicos confeccionados e servidos por donas de casa locais ( e não cozinheiras) que apresentam receitas recuperadas das mães e avós. A sopa de picadilho, a carrilhada de porco ibérico ou a simples sobremesa de morangos com sumo de laranja são algumas das iguarias que se podem desfrutar. Aqui o pretensiosismo não tem lugar à mesa.
Um pouco mais acima, fica a cozinha, a sala do pequeno almoço e as restantes suites. As encantadoras suites. Todas elas amplas, coloridas e com o intimismo das casas de campo. Cada uma com sua singularidade. A descomunal e surpreendente banheira de banho munida de dois chuveiros dourados. A cama de sonho com colchões especiais de penas de ganso, feita para o descanso e o deleite. O casamento entre os móveis recuperados das casas locais e outros desenhados de propósito. Cada um com sua singularidade.
Finalmente, o último lance de escadas. O que dá para o terraço com vista sobre a planície. Dali se vislumbra um pôr do sol único na quieta paisagem de La Parra.
Friday, January 22, 2010
Por ocasião de uma breve estada no Alentejo, uma amiga minha viu-se confrontada com a proposta sui generis de venda de uma casa. A abordagem partiu de um idoso que frequentava o café onde costumava tomar a bica matinal: “Menina, ténhe uma casa pa vendere mais aléem. Tá todaa arranjadinha, tem dois quatros, sala, casa de bénho e quintal. Quer dizere, o quintal teim ma nã teim…
Convidada uma, duas, três vezes a visitar o imóvel – e apesar de saber de antemão que não estava interessada – Maria aceitou lá ir. Até porque não cabia em si de curiosidade de conhecer o quintal “teim ma nã teim”. Quando lá chegou – e depois visitar quartos e sala – indagou pelo quintal. Ao que o proprietário se prontificou a mostrar, abrindo a porta da cozinha. Maria não conseguiu disfarçar a exclamação: “Este é que é o quintal?!” O dito tinha pouco mais do que um metro. Mesmo à frente, erguia-se um enorme rochedo. “Pois! Como já tinha dito à m’nina: teim ma nã teim. Se mandar a rocha abaixo teim, se nã mandar e deixar ficare como tá nã teim…”
Wednesday, January 13, 2010
Segue-se o relato exaustivo da conversa telefónica que escutei inadvertidamente durante a viagem de metro Oriente/Alameda. De registar que o discurso foi proferido em grande algazarra. Uma distracção para a minha leitura matinal. Irritante.
“Minina, já deixei de ser isquisita. Sabe, tenho 28 anos e não quero ficar sozinha. Desde que ele tenha dentes na boca (gargalhada estridente)… Há uns anos, ainda via se tinha barriga ou uma perna mais comprida que outra. Agora não. Enfim (gargalhada ainda mais estridente)… Mas sabes, já deixei de escolher gajos na noite. Na discoteca, sabes com’é: eles são uns gatos e elas umas deusas. Mas depois, à luz do dia, são um desastre aéreo (gargalhada histriónica). Nem pensar... Sabes o gerente daquela discoteca angolana, que já morreu? Uma vez, ele me disse: “tu és linda mesmo de dia”. Tinha ficado lá até de manhã. Ele disse logo: “à luz do dia é que se vê se as pessoas são lindas ou não.” E é verdade, minina. Já a Maria… Uma vez fui a casa dela e perguntei por ela à irmã. Acreditas que ela estava sentada no sofá e eu não a reconheci? À noite, monta-se toda e parece uma princesa. Mas de cara lavada não vale nada. É feia como um camião. Sim, é essa mesmo. O que é que tem? Afugentou o gajo, como assim? (pausa muito breve) Quero lá saber, eu também estou no metro, minina. Que é que tem? Eu quero é que todo o mundo se exploda! (pela parte que me toca, tive vontade de lhe meter a mão à cara. Juro que tive. Não satisfeita com a poluição sonora, esta agora também quer que eu exploda! Evoquei as máximas do reiki para não reagir.). Continuando… “Me conta o que aconteceu com ela. Então? Ok, não queres falar, não fales. Tu é que sabes… Vou agora p’ó trabalho e à tarde tenho aula de matemática. Destesto matemática, irra. O meu irmão é que tá bem. Ele é formado em matemática e ganha três mil dólares por mês. Sim, sim, o que tá em Angola. Em dezembro, comprou um jipão, minina. Vermelho. Mesmo lindo...”
Chegámos finalmente à Alameda. Como eu, a rapariga da converseta saíu lá. Sempre agarrada ao telemóvel. Como se fosse uma extensão da cabeça. Antes que ela se colasse a mim de novo, alarguei o passo. Não fosse levar com a monstra da verborreia até à Baixa Chiado. Ufa, que dor de cabeça.
Monday, October 26, 2009
Que mania a nossa de mandar foder quem nos arrelia… Dei por mim a pensar no outro dia que não faz o menor sentido. Se foder é bom – e todos gostamos – que raio de lógica é mandar alguém foder como se fosse maldição?
E se, a partir de agora e sempre que nos sentirmos importunados, em vez de mandar foder, dissermos “nosso Senhor me foda”? Assim fazemos o gosto ao gosto. E sem pecado.
Tu vais, eu fico. Tu chegas, eu abraço-te. Ainda com saudade. E a ternura que sobra.
Mas não peças mais. Não peças para ser receptáculo das tuas aventuras. Ainda quentes e presas ao lugares de onde vens. Não peças para escutar as tuas histórias. Com lacunas inadvertidas e deliberadas. Não peças a cumplicidade que deixou de existir.
Da próxima vez, leva-me contigo. Vamos olhar na mesma direcção. Com olhos diferentes, claro. Mas de mãos dadas.
Wednesday, October 21, 2009
Thursday, August 27, 2009
Gosto de escrever fora de horas. Gosto de escrever dentro de horas. Gosto de escrever quando estou só. Ou quando me sinto só. Gosto de escrever todos os dias. Um parágrafo, dois ou mais. Gosto de escrever para mostrar. Gosto de escrever para esconder. Gosto de escrever para dissimular. Gosto de escrever para brilhar. Gosto menos de escrever quando me traçam balizas. Fico fora de jogo. A bola não flui da mesma forma. A sério…
Gosto de escrever com o coração. Gosto de escrever com os pés. Gosto de escrever sem filtros de espécie alguma. Gosto de escrever ao sabor do momento. Seja ele dor, felicidade ou capricho.
Tuesday, August 25, 2009
Não sei explicar muito bem o que se passa… Tenho a mania que sou intuitiva e controlo tudo à minha volta. Na verdade, a intuição apenas me traz sofrimento ao quadrado. E isso é tão estúpido quanto triste. É que já não basta o sofrimento que se segue. Eu sofro também o sofrimento que antecede. Desculpem os pleonasmos, mas quando estou neste estado de alma sou fã acérrima das figuras de estilos. Não há como redundâncias e contradições para espelhar a cores a confusão dos meus pensamentos.
Às vezes, penso que tenho um distúrbio mental grave. Chego mesmo a equacionar a esquizofrenia como possibilidade. É que num momento estou muito feliz e a sentir-me a mulher mais afortunada do mundo. E, quase a seguir, caio num pranto de colossal tristeza. O facto de ser gaja e ter as hormonas em batalha não ajuda. Agora que “desbafei”, como diz uma amiga from England, já me sinto melhor. Aliás, já me sinto ridícula. Com o alarde criado à volta de nada. Incontornável. Esta minha dualidade…O que vale é que estou na contagem decrescente para o fim do dia. Pressinto um dia de sol amanhã. Literal e metaforicamente falando.
Thursday, July 23, 2009
A minha amiga, tal como eu, acredita em contos de fadas. E, ao contrário de mim, sempre idealizou um casamento de princesa. Nesse dia, o do casamento, emocionou todos os presentes. Com o brilho dos seus olhos. Nunca a tinha visto tão feliz. Nem tão apaixonada. Nem tão bonita.
Não tenho falado com a Luisinha. Entretanto, tornou-se esposa. Entretanto, foi mãe. Entretanto, está a concluir a tese de doutoramento. Entretanto, com tudo isto, quase perdemos o rasto uma da outra. Tenho pena.
Muitas vezes, o quotidiano não se compadece da amizade. Muitas vezes, o tempo que sobra é pouco e quase sem qualidade. Muitas vezes, mais vale adiar um telefonema do que fazê-lo em clima de tensão. Muitas vezes, as pessoas afastam-se inadvertidamente. Tenho pena.
Wednesday, July 15, 2009
As desculpas genéticas irritam-me solenemente. Estava precisamente a falar disso com uns amigos outro dia. A propósito de alguém culpar os genes pelos quilos que ganhou a mais. “A mãe também é generosa de formas, para não dizer, muito generosa…”, justificava assim uma das presentes.” “Não me venham com tretas. E o fast food, os gelados com chantily, as noites de copos não contam?”, retorqui de imediato.
A discussão continuou... Mas passou a outro protagonista. Este não tem problemas de peso. Ou melhor, de excesso de peso. É mais de falta dele. Tudo devido ao consumo abusivo de cocaína. “Agora não me venham justificar o comportamento aditivo com o facto do pai fumar... “, avisei logo. Antes que a conversa metesse nojo. Mesmo assim, houve quem entendesse interceder e justificar. Não a “favor” da genética, mas da educação. “Coitado, o pai é uma figura de Estado e nunca teve tempo para ele. O rapaz passou a infância enclausurado num colégio interno.” Se teve educação é porque teve. Se não teve é porque não teve. Enfim…Quem somos nós para aferir as razões que levam alguém a engordar ou a tomar drogas? Um dos interlocutores, a páginas tantas, depois de ouvir argumentos e contra-argumentos daqui e dali, resolve sacudir a discussão: "Nós somos 12 irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Lá em casa fomos todos tratados e educados da mesma maneira. Eu dei em paneleiro, tenho um irmão drogado, uma irmã puta e outra cabeleireira." Fez-se silêncio por breves segundos. Logo a seguir, rebentámos numa risada. E voltou a fazer-se silêncio. Cada um com as suas ilações… Realmente! Quem somos nós para discorrer sobre o que não sabemos?
Thursday, June 25, 2009
God is gay. Uma heresia. Mas espelha na perfeição o deslumbramento que senti... Nunca tinha visto tanto homem lindo por centímetro quadrado. A sério. Estive em Paris para um casting e, por mero acaso, fui atraída para uma festa sui generis. Ia a passear com os meus colegas depois do jantar. Procurávamos um bar simpático para tomar vinho e desfrutar da atmosfera nocturna da cidade da luz. No caminho, esbarrámos num quarteirão imponente com jardim, de onde saíam ondas de animação e glamour. É ali que queremos estar. A certeza foi tão imediata quanto unânime. Fomos, então, de penetras ao club-sandwich, no edifício Pierre Cardin. Depois de pagarmos 25 euros cada um. Assim que passámos o portão, deparámo-nos com uma autêntica fonte de tesão sonoro e visual. A música era sexy e os convivas soberbos. Era uma festa gay topo de gama. Creme de la creme. Manequins, actores, cineastas, criadores de moda. Enfim... Entre bebericar champanhe, dançar e disparatar, não conseguimos evitar de espantar para algumas criaturas. Homens sobretudo, mas também mulheres, de estética arrojada. Demos de caras com o estilista Mark Jacobs, a ex-namorada da Lindsay Lohan, o manequim Jacomossi e outros tantos cujos nomes me escapam. Eu, que sou despudorada, senti-me uma verdadeira colegial. Faltavam-me 15 centímetros de salto. Inadmissível nesta festa. Até porque os reis da noite os tinham. Vi homens lindos, de corpos esculpidos, de calções rasgados e brutos stiletos. Uma inquietação. "Mon Dieu, faz-me gay!", pensei vezes sem conta...
Sunday, April 26, 2009
As desculpas não fazem delite
Há atitudes que não se justificam. Mas podem enquadrar-se. No sábado, eu e o meu namorado fomos jantar com dois amigos. Tudo indiciava uma noite agradável, apesar da chuva intermitente. Fomos ao Bocca e comemos que nem abades. Na verdade, que nem abades com pouco apetite. Já que a nouvelle cuisine não se compadece de estômagos toscos como os nossos. Mas deparámo-nos com um maravilhoso menu degustativo. Das entradas de vieiras com trufas e caviar aos pratos de bodião com lapas, ao atum tekaki, sem esquecer o pudim de ricota acompanhado de sorvete de manjericão... Tudo regado de um encorpado tinto do Douro. Acabado o jantar e ainda por acabar a conversa, fomos até o Lux. Como estávamos todos numa de serão ligeiro continuámos no vinho. Ficámos junto ao bar e - entre um copo, um fait divers e uma gargalhada - se fez o convívio. Entretanto, descobri que o barman preparava uma bebida decorada com rodelas de pepino. Pedi-lhe uma e gracejei com o grupo, colocando-a nos olhos em jeito de máscara cosmética. Péssima ideia. Esquecera-me do rímel e do eyeliner que de repente me vieram à memória quando vi a cara de horror do meu namorado. Intuí logo o borrão. Antes de correr para a casa de banho atirei, sem pensar duas vezes, a rodela de pepino. Que foi aterrar junto ao peito do empregado. Bastou uma fracção de segundos para me arrepender do gesto. Mas já não o podia suspender. Depois de me retocar, voltei ao bar decidida a desculpar-me. Protagonismo que me foi tirado pelo barman. Antes de me deixar falar, repreendeu-me. Assumi a culpa e pedi mil perdões pela atitude infantilóide. Mas a diversão ficou por ali. Assim como a vontade de ali estar. Senti-me triste e bastante envergonhada.
De volta a casa, e a propósito de atitudes irreflectidas, lembrei-me do Pepe, o jogador que está na berlinda por ter agredido ao pontapé um adversário em pleno jogo. Não sei o que se passou na cabeça dele. Nada justifica a violência, mas recuso-me a crucificá-lo... Por detrás ou ao lado do gesto, há sempre um contexto. Há atitudes que não se justificam. Mas podem enquadrar-se. Pior do que o repúdio de quem testemunhou o episódio, pior do que o castigo das entidades reguladoras e pior do que tudo é a severa auto-censura. O rapaz está com certeza arrependido do que fez. E, se não sabia, ficou a saber que as desculpas não fazem rewind. Nem delite.
Thursday, March 19, 2009
Thursday, February 05, 2009
O coração dele dispara quando na final do curso de manequins é escolhido para o trabalho. O único entre algumas dezenas de candidatos. Tem 17 anos e muitos sonhos. Aquele é o pontapé de saída de uma carreira que, acreditava, seria de muito sucesso. A primeiríssima contratação.
Não cabendo em si de expectativa, vai à prova de roupa no dia seguinte. Chega pela boleia do pai, que fica à espera à porta do local marcado.
A pessoa que o recebe orienta-o para uma sala pequena onde deverá vestir-se. Lá, apenas encontra um fato de coelho. Ainda sem perceber o que se passa, indaga sobre o paradeiro dos coordenados. A resposta vem num embrulho de desprezo:
- A roupa é essa que aí está.
- Ah... Julguei que ia fazer prova para um desfile. Quando me falaram da Fil...
- É um desfile. Vais “passar” o Quicky. E é para a Fil Alimentar.
Fica devastado. Sem palavras. E sem “jogo de cintura” para disfarçar a decepção. Inquieto, baralha-se com as patas do animal. Sob o olhar frio e atento da produtora. Troca os braços pelas pernas e vice-versa. Uma. Outra. E outra vez. Aqueles breves momentos sabem a eternidade.
Feita a prova e acertados os detalhes, apressa-se nas despedidas, tal a vontade de fugir. E de chorar. De volta ao carro do pai, omite o que se passa. Disfarça com aparente entusiasmo.
Passaram-se alguns anos, e o meu amigo, num contexto de copos e boa disposição, confidencia o seu primeiro casting. O grupo ri muito. Ele mais ainda. Mesmo assim, uma de nós vai em seu auxílio: “Ao menos estavas disfarçado. Ninguém sabia que eras tu...” Ao que ele, depois de soltar uma gargalhada ainda mais sonora, remata: “Aí é que te enganas. A boca do coelho era a minha cara. E estava toda de fora...”
Friday, January 30, 2009
Está a dar-me um ataque de amor. Neste preciso momento. Avassalador. Daqueles incontroláveis. De tal forma que não cabe em mim. Tal a urgência de o partilhar. Não apenas com o amor da minha vida. Mas com toda a gente.
Há que dizer o amor. Como se dizem as outras coisas. Sem pruridos. Ou com eles. Com figuras de estilo. Ou sem elas. Conforme as ganas da pessoa. Há que dizê-lo tantas as vezes que apetecer. Sobretudo se é gigante e não cabe todo dentro de nós.
Há que dizer o amor. As palavras são ambíguas e não dizem da sua verdade. Mas sugerem-na. As palavras são pequenas e não medem a sua grandeza. Mas aliviam o peso de o carregar sozinha. Isso sossega-me. Bastante.
Thursday, November 20, 2008
Enquanto lanchávamos, a Maria confidenciou-me as regras que orientaram (ou desorientaram a sua vida nos últimos meses. “Deixei de fazer perguntas. Mesmo que a intenção fosse meramente trivial. Não queria que o meu interesse se confundisse com desconfiança ou curiosidade desnecessária. Deixei de opinar. Por perceber que as minhas opiniões pouco importavam. Ou apenas importavam quando iam ao encontro das dele. Deixei de queixar-me. Por entender que afectava a atmosfera de boa energia que desejávamos. Deixei de conversar. Por recear perguntar, opinar ou queixar-me. Deixei de dormir. Porque as perguntas, as respostas e as declarações que reprimi passaram a atormentar-me quase todas as noites...”
“Meu Deus, Maria! E agora, o que vais fazer?”
“Não sei bem. Ando à procura do meu Ego. Entendes?” E , com um sorriso maroto, a contrastar com a atmosfera, ironiza: “Perdi o norte. E o sul também...”
Estava ainda a assimilar a informação e a procurar propiciar-lhe algum conforto, quando a minha amiga conclui o desabafo: “Para já, vou tratar dos papéis do divórcio. É estranho. A ideia era ser a mulher dos sonhos dele. Em vez disso, ele tornou-se o homem dos meus pesadelos.”
Wednesday, November 12, 2008
De visita à família, acompanhei um pouco a rotina de um dos meus sobrinhos: o Pedro. Ele tem seis anos, frequenta o primeiro ano e sai da escolinha todos os dias às 16 horas. Como os pais estão a trabalhar, quem o vai buscar é a minha mãe. No dia que cheguei, fui com ela.
Ao toque de saída, lá vinha ele todo saltitão com um bando de meninos e meninas à volta. Quase todos a chamar-lhe pelo nome. "O puto tem carisma", intuí com orgulho de tia.
Assim que nos vê, corre para a avó, dá-lhe um beijo gigantesco e pede autorização para jogar à bola. “São só dez minutos”, justifica de vozinha melada. E, antes de esperar pela resposta, segue cheio de confiança com os amiguinhos.
Acabado o jogo, seguimos para casa dos meus pais. Estávamos a lanchar quando o meu irmão chegou. Ninguém o esperava tão cedo. Conseguira escapulir-se. O Pedro não queria acreditar... Os seus olhos brilharam de excitação:
- "Que bom que chegaste, papá. Já tinha tantas saudades tuas!"
- "Quantas saudades?"
- "Muitas, muitas, muitas. Do fundo das letras ao fundo do espaço."
- "Como assim Pedro? Antes dizias que era do fundo do mar ao fundo do espaço. O que é que mudou?"
- "O mar tem fim, papá. E as letras são infinitas."
Poesia pura. Os meus ouvidos deleitaram-se. O meu coração esparramou-se de ternura. A propósito, repesquei na memória a incontornável frase de Caetano Veloso: "Nem que eu bebesse o mar encheria o que tenho de fundo..."
Tuesday, November 11, 2008
Eulália era pequenina, espevitada e gulosa. Era também inocente. Como são, aliás, todas as crianças com seis ou sete anos. Um certo dia, uma prima da mãe - proprietária da mercearia mais conhecida da aldeia - lança-lhe o desafio: “se disseres à tua professora “vai p’ó caralho” ofereço-te este boião cheio com os teus rebuçados preferidos”. Ela fica num reboliço. Até saliva, em reflexo condicionado. Mas - embora desconheceça o teor da expressão - pressente tratar-se de uma proposta indecente. Ou pelo menos pouco decente. Advinha-lhe de imediato o tom maroto. Daí não a ter acatado logo.
Deixa-a “na gaveta” por uns dias. Até uma manhã em que se sente contrariada pela educadora e deixa escapar: “Vá p’ó caralho.” Atónita, a professora chama-a ao canto da sala e prega-lhe com afinco dez reguadas em cada mão. O castigo deixa-a num choro convulsivo. Mais tarde, quando a mãe a vai buscar à escola, encontra-a ainda desfigurada. Quando a questiona sobre o sucedido, a pequena exibe o estado deplorável das mãozinhas e rebenta de novo num pranto. O ardor que ainda sente, a mágoa pela agressão que sofrera e o receio de nova reprimenda adiam as explicações por uns minutos. Mas, sob insistência e à medida que se acalma, relata toda a história.
Ainda sem querer acreditar, a mãe corre ao estabelecimento da prima. A discussão é de tal ordem que não resta espaço para mais nada. Apenas para uma grande zanga. Os rebuçados, esses, continuam nos frascos, empoleirados no balcão da mercearia. A menina entretanto cresce e com ela cresce também a mágoa pelo incumprimento da promessa feita.
Já adolescente, ela, a irmã e os pais mudam-se de malas e bagagens para a Capital. E é dentro do táxi que os leva até o combóio, que avista ao fundo da rua um vulto a aproximar-se. É a prima Gertrudes que, embora pesada e a sofrer das articulações – corre a uma velocidade nunca antes vista. Traz com ela um embrulho debaixo do braço que - mesmo antes do veículo arrancar - estende a Eulália. E, num soluço emocionado, explica: “Estes são os rebuçados que te prometi há uns aninhos atrás. Perdoa-me.”
Tuesday, October 21, 2008
Thursday, October 16, 2008
Ufa! O Gonçalo nasceu. Fruto de muito amor, determinação e fé. E também da valentia e coragem da mamã: a minha amiga Gi.
Uns dias antes, os médicos disseram-lhe com as letras todas: “corres risco de vida no parto”. Mas estas letras são as minhas. Já que as letras ditas foram outras. Menos figuradas. Mais desumanas. As letras ditas nem pretendiam ser dissuasoras da gravidez. Já era tarde demais para isso. Foram ditas às trinta e duas semanas de gestação. Foram ditas na eminência de vida do bebé.
Durante algum tempo acreditou-se que a minha amiga Gi não podia ser mãe. “É cientificamente improvável”, disseram-lhe os médicos. Os mesmos que a felicitaram pelo milagre da gravidez. Os mesmos que a pouco tempo do parto a condenaram. E semearam uma onda de angústia à sua volta.
A notícia da impossibilidade de engravidar caíu que nem uma bomba na vida da Gi. Das potentes. Ela, que desde adolescente sonhara casar de véu e grinalda e constituir família. Ela, cujos olhos brilhavam sempre que via uma criança. Ela, que não continha as lágrimas sempre que o tema maternidade vinha à conversa.
Quando o impacto da bomba se reduzia a uma ligeira poeira, eis que cai outra bomba. Esta de outro alcance. Afinal, a minha amiga – de cirurgia marcada para extrair miomas, útero e companhia – estava gravidíssima. No meio científico ninguém percebia como. Houve dúvidas e, sobretudo, receios.
A decisão de deixar o processo seguir não abraçou consensos. Foram meses difíceis, feitos de internamentos, repousos absolutos, esperanças e desesperos. Chegou a equacionar-se o desfecho mais trágico. Mas a Gi acreditou no sonho. E lutou por ele.
Parabéns, mamã.
Tuesday, September 23, 2008
Monday, September 15, 2008
Nos filmes de ficção científica é comum o extra-terrestre incorporar a vítima, assumindo o seu aspecto. A ideia é ludibriar as próximas vítimas...
As pessoas de fraca personalidade ou baixo índice de auto-estima tendem a fazer o mesmo. Ou algo parecido. Assumem gradualmente o esterótipo da sua “musa”. Em pouco tempo de convivência passam a falar, vestir e estar como a pessoa que admiram. Ou de quem têm inveja (que é uma espécie de admiração não assumida).
Há até os que vão ao pormenor de “vestir” os tiques e trejeitos mais singulares, chegando a embrenhar-se de tal forma na transferência de personalidade que se esquecem da noção de ridículo. A identificação é, por vezes, tão abrangente que há quem se convença ser mais autêntico do que o original. Pior ainda é quando estas carapaças de ocasião usurpam a alma da sua figura de referência.
Monday, July 28, 2008
Esta manhã conheci Yasmina. Uma menina com três meses de idade, cara de anúncio Cerelac e sem vontade de sorrir.
Vinha ao colo do pai, um jovem emigrante de leste, ainda imberbe. Parecia irmão dela. E cioso da preciosidade que embalava, ao contrário da bebé, vinha de rosto aberto. Mostrava uma expressão cheia de vaidade, ternura e dentes estragados. Não parava de brincar com Yasmina. Sempre na expectativa de abrir um sorriso naquela boquinha fechada. Mas não foi bem sucedido. Pelo menos no tempo em que os observei.
Cheguei a sentir-me inquieta. Tudo divergia nestes dois seres. O ar gaiato no rosto do jovem que mal teve tempo de ser criança. Os lábios hirtos da menina que ainda só devia ter razões para sorrir.
A beleza imaculada no rostinho rosado de porcelana dela. O semblante enxovalhado dele. E as mãos típicas de quem conhece a dureza do trabalho. Sujas, maltratadas e grosseiras.
O contraste era grotesco.
Monday, June 23, 2008
É incrível o número de casais de meia idade que encontro na rua. Quase todos – sobretudo os de clásse média e média baixa – convergem numa particularidade: o elemento masculino caminha cerca de um metro à frente. Não vão de mãos dadas. Não vão abraçados. Nem sequer vão lado a lado. Ela até por vezes dá uma espécie de corridinha intercalada para poder acompanhá-lo. Mas logo, logo, ele volta a destacar-se e assume a dianteira. Como que a deixar bem claro: “Calma aí, nada de confianças. Vamos juntos mas separados.”
Ainda hoje num raio de meio quilómetro observei esta espécie de coreografia em três pares distintos. Que coisa! Juntos. Mas separados.
Um quadro ilustrativo do nacional machismo. Mas por que se adianta ele aqueles centímetros? Pretende abrir alas para a mulher passar? Quer fazer-se passar por “single”? A mulher causa-lhe embaraço? Ou, simplesmente, está farto de a aturar?
Seja qual for a motivação, é triste. É triste ver de fora. Ainda mais triste deve ser sentir por dentro.
Tuesday, June 17, 2008
“Santa Maria Mãe de Deus!” O piropo mais simpático que um desconhecido me dirigiu. E tenho ouvido muitos por estes dias. Não por ser irresistível mas porque ao lado da minha casa está a ser concluída uma mega obra de construção. Se é que me faço entender... Voltando ao piropo, não é inédito. Não deve uma palavra à imaginação. Foi proferido por um trolha sem rosto. E evoca o nome de Deus em vão... Mas trazia com ele alma. E expressividade.
Soube-me mesmo bem ouvi-lo. Sobretudo porque surgiu dois dias depois de outro. “Esta gaja não vale um c...” Juro que teria ignorado não fosse o contexto. TPM. Poucas horas de sono. Desconforto em relação à toilete acabada de escolher. E, sejamos francos, uma afirmação desta natureza é efectivamente demolidora. Deixou-me devastada. Não que dê importância a estes “mimos” de rua. Mas doeu. Nunca ninguém me tinha descrito com tão baixos predicados. Não na minha cara. É que fora dela tanto me faz. A sério. Mas não, foi dito em voz alta. Ao vivo e a cores.
No mesmo instante, senti alguns pares de olhos anónimos sobre mim. Todos eles ávidos de curiosidade. Mal ou bem intencionados, todos olharam. Motivados por um desafio pouco dignificante. Ver a gaja que “não vale um c...” O que terão concluído? Valia ou não o dito membro? Continuo sem saber o que ficaram a pensar.
Mas, já agora, deixo-vos uma reflexão: qual o “valor de mercado” do respectivo? Como se avalia? Que premissas estão em jogo? É só para aferir a lógica da ilação que acabo de inventar: "Este c... não vale uma gaja." Que tal?
Santa Maria Mãe de Deus...
Monday, June 02, 2008
A par da óbvia diferença anatómica que distingue os homens das mulheres há um rol de sensibilidades que são específicas de umas e de outros.
A forma como vêem o contexto das coisas, por exemplo, é diametralmente oposta. Eu explico melhor. O sentido de oportunidade não significa o mesmo nas versões feminina e masculina. Aliás, a meu ver, os “machos” são mesmo destituídos desta noção. Por outro lado, as “fêmeas” dão por norma muita atenção aos enquadramentos...
Passo a ilustrar, a mulher raramente se atreve a comprometer o primeiro encontro, um jantar especial ou um momento romântico com o relato de um “flirt” antigo. Não interessa o quão antigo seja. Não interessa que pouco ou nada tenha significado (se nada significou por que se evoca o assunto?). Não interessa que a história tenha apontamentos de humor (a vontade de rir passa assim que a interlocutor(a) percebe que o centro da atenção é alguém que já esteve no seu lugar!). Interessa menos ainda saber de quem se trata. A abordagem é simplesmente desadequada.
Há momentos que devem acontecer apenas a dois. Sem fantasmas. Nem fantasminhas. Ponto final.
Monday, May 26, 2008
“Tu também és uma esquisita da ...” Deixo a conclusão da frase ao critério de cada um. Que é como quem diz, à sua imaginação primária.
Há dois dias no metro fui surpreendida com a abordagem sui generis de uma avó à neta com cerca de sete anos. Seguia rumo à Alameda quando as duas entraram em Chelas. Vieram tumultuar o meu sossego num abrir e fechar de olhos.
Passo a explicar... A avó, de formas avantajadas, trazia jeans elásticos, decote generoso e cabelo descolorado. Trazia também o jeito gaiato de quem é nascida e criada num bairro pobre de Lisboa. Fez-se notar assim que entrou. Esbaforida, gesticulou para a menina sentar-se junto dela. Face à recusa daquela não hesitou evidenciar o “latim” que aprendeu na rua: “Tu também és uma esquisita da cona” ( aqui achei importante reproduzir a dita palavra). A afirmação foi proferida em tom absolutamente possante como se a razão fosse toda sua.
Fiquei em estado de choque. Não estava a acreditar nos meus ouvidos. Depois de uma breve troca de olhares com a senhora do lado não resisti a uma gargalhada. A essa seguiu-se outra e, até ao destino, fui acometida de um ataque de riso intermitente. Acho até que os meus abdominais agradeceram o exercício.
Ciente da asneira e querendo remediar o quadro, a idosa continuou a falar, mas noutro registo. Agora condescendente, acrescentou: “Mais queria ter cem netos do que ter-te a ti. Só as dores de cabeça que me causas...” E continuou numa ladaínha à beira do indecifrável. A criança, alheada dos desabafos da avó - talvez por que os ouve desde sempre - indaga com mel no olhar:
“Compras-me uma história?”
“Não senhora, a menina tem os livros da escola para ler.”
“Mas a professora não marcou trabalhos de casa, avó.”
“Ah não!? Mas que raio de professora é essa? Não entendo estas professoras modernas. Não querem é fazer nenhum.” Ao concluir a frase olha para mim em busca de aprovação. Preferi baixar os olhos porque me faltou coragem de abanar a cabeça em sinal de discordância absoluta.
Astuta, e na expectativa da minha atenção e - quem sabe - simpatia, a idosa resolveu desviar assunto. Virando-se de novo para a miúda, vestiu a capa de educadora a sério e choramingou: “Prometes à avó que nunca mais arrancas os pêlos?” “Eu não arranquei, raspei com a gilete da mãe...” Só então olhei para a criança e notei-lhe ausência de sobrancelhas. Senti de novo vontade de rir. E agora também de chorar. É que a criança era mesmo esquisita. Ela. A avó. E, provavelmente, a família toda. Mas era esquisita dos... Dos cornos, claro. Isto para não me distanciar muito do contexto.
Monday, March 24, 2008
“Que chatice...”, pensei contrariada. Estava mesmo com vontade de aproveitar a viagem para ler. Ando agora entretida com o manual do curso de reiki. E, claro, prefiro ler sentada e bem acomodada. Mas logo me lembrei de uma máxima bem a propósito: “apenas por hoje não me vou preocupar”. E, mesmo de pé, embrenhei-me na leitura.
Tão distraída me encontrava a descobrir mais sobre a harmonização das energias vitais quando um senhor já idoso me cede o lugar. Aceitei prontamente julgando-o de saída. E muito surpreendida fiquei quando, duas ou três estações à frente, reparei que ele ainda ali se encontrava. De pé, mesmo ao meu lado. Olhava com serenidade para mim. Perguntei-lhe, então, porque me oferecera o lugar, uma vez que não ia sair. Com a calma e sapiência de quem deixou de ter pressa há muito, explicou: “A menina está a ler. Eu tenho pouco ou nada para fazer. E muito tempo para me sentar...” A resposta apaziguou-me. Tinha tanto amor no olhar que encheu o meu dia de sol. Naquele momento intuí: este homem foi numa das suas vidas passadas o ancião mais sábio e importante de uma casta tribal. Senti ainda que, nessa ou noutra encarnação, as nossas vidas - a dele e a minha - haviam cruzado.