Monday, May 10, 2010

As hormonas têm cá um power! Comigo são mesmo filhas da mãe. Em plena crise menstrual, com dores acutilantes, sensibilidade extra e mau feitio ao quadrado, esperava ontem de manhã pelo autocarro. Eu e mais três ou quatro pessoas. Mas foi a mim que uma tal de testemunha de Jeová ofereceu um folheto com a imagem cliché do céu dramáticamente apocalítico e o seguinte título: “Consolo para os Deprimidos”. Juro por Deus que não estou a inventar. Nem sequer a enfatizar. Quando baixei os olhos e percebi o que estava escrito, tive a certeza: a puta da neura estava-me estampada na cara. Só podia. O raio da mulher topou-me. Nem os óculos de sol tamanho XXL a conseguiam esconder. Bem, e se já estava mal, fiquei ainda pior… Mas por poucos segundos. É que o episódio, de tão risível, sacudiu-me a alma.

Wednesday, March 31, 2010

Com que idade deixamos de chamar velhos aos velhos?

Que puta de idade! Que terramoto interior! A partir de agora já nada é como dantes. E nem venha o Paco embandeirar em arco com a ternura dos 40. Quando a imortalidade cai de quatro e começamos a dar de caras com besta da morte, tudo muda. É um duro revés. Não sei se é coincidência ou não, mas a insónia passou a ser companhia assídua das minhas noites. De repente, a cama tornou-se um berço de desespero. Durmo apenas nos intervalos do flashback (involuntário) à minha vida. As ideias afluem com tal desalinho e violência que um dia destes perco o juizo. A sério! Não está fácil abrir mão da condição de menina e moça…

Tuesday, March 30, 2010

Passou a noite em claro. Que é como quem diz, em sobressalto. A pensar em mil formas de dizer-lhe “não vás, fica”. Não disse. Percebeu, então, que o amor não se apropria. Que o amor diz “vai, se é essa a tua vontade”. O amor é como areia fina na mão de alguém. Quanto mais se aperta, mais ela se evade por entre os dedos.

Thursday, March 25, 2010

Não estou alegre nem triste. Apenas pensativa. Para não variar. Acho que penso e avalio demais… Estou a retrospectivar as palavras que me disseste. Doeu como o caraças. Porque dói sempre ser repreendida. Dói mais quando a repreensão é maior do que a falta. E mais ainda quando arrasta faltas do passado. E outras tantas que não nos pertencem. Acho que foi o que aconteceu…

Wednesday, March 24, 2010

Vivo apaixonada. Amo e sou amada. Mas não tenho ilusões. Esta coisa do amor, de tão efémera, precisa de ser cuidada com circunstância. Não se pode amar apenas com o coração. Erro crassíssimo. É o caminho mais curto para o desamor. O segredo é racionalizar. Sempre. Estar dois passos à frente da emoção. Não deixar que ela nos cegue. E dar atenção aos sinais. Em especial aos indícios de que as coisas já não são como eram. Que o tom de voz é outro. Que as borboletas deixaram de esvoaçar nas nossas barrigas. Que o torpor está a descorar. Que a paciência tem índices próximos do limite.
Não acredito no amor eterno. Não acredito no amor romântico e idílico. Acredito sim no amor que se renova. A cada dia que passa. A cada gesto que acontece. A cada diálogo que se invente. A cada foda que se dê. E amar só faz sentido com tesão. O desejo é um dado quase adquirido nos dois primeiros anos de convivência. Mas é também uma excepção daí para a frente. A não ser que a líbido seja ateada. Dia após dia. Não nos podemos deitar à sombra do destino. Fiquei grata pela descoberta.
É comum julgar que connosco é diferente. Mas por que raios haveria de ser? Na minha experiência de ser apaixonado - e muitas vezes defraudado - garanto-vos: sem renovação não há paixão. Não há amor que nos valha. E renovação pode ser um novo look, uma expêriencia erótica mais ousada, uma operação estética, um caso extra-conjugal, uma viagem ou mil outras coisas.

Tuesday, March 23, 2010

Hoje é o primeiro dia do resto deste texto. Não sei bem o que vai sair daqui… Para dizer a verdade, não quero saber. Gosto de escrever sem balizas. Por dois motivos: o primeiro e mais importante, é o prazer imediato de registar o que sinto sem trair o meu sentido estético. O segundo, e perdoem-me a petulância, é que pode até ser que estas baboseiras venham a encontrar eco desse lado.
Hoje está um dia taciturno. Chove e a noite chegou com mais pressa do que é costume. O dia ideal para focar-me no intento de escrever. Até agora, ainda não disse nada de novo. Apenas justifico. Uma tendência minha, aliás: justificar, contextualizar, entender… Sou tão Calimero que mete dó. Como se tudo tivesse que ter um enquadramento lógico, legal ou moral. Super irritante. É uma especie de censor que me faz sentir culpa very often. Não gosto disto. Se esta nuvem não me perseguisse seria mais feliz. Costumo dizer que a puta da educação me persegue. E castra. Enfim… Vivo em constante dualidade: entre o que faço e o que me apetece fazer. Sinto que está na hora de implodir muralhas. Tenho quarenta anos. Não conto viver outros quarenta. E quero abraçar os próximos quinze com intensidade. Sem culpa. Sou curiosa e adepta fervorosa de novos desafios. Apetece-me ousar...

Sunday, February 28, 2010

Ensaio sobre os sentidos

Nestas "núpcias com a natureza", a evasão é realmente possível. Num silêncio, diferente de todos os silêncios escutados nas cidades, ouve-se harmonia.

A Quinta do Chocalhinho fica na aldeia da Bemposta, a dois quilómetros de Odemira. Mesmo no coração do sudoeste alentejano. Apenas a quinze minutos das praias da Zambujeira do Mar e de Vila Nova de Milfontes. Tão perto e tão longe. Aqui, ouve-se o cuco e o chilrear de outros pássaros, o zumbir das abelhas, o quachar das rãs e dos sapos... E, outrora, também se ouviu o chocalhar das ovelhas (por isso o nome Quinta do Chocalhinho). Som perpetuado nos guizos que acompanham as chaves dos hóspedes.
Antes de recuperar a herdade adquirida em 1942 pelo avô, de quem é homónimo, Luís Mendonça Freitas viveu em Macau. Esteve lá cerca de quinze anos. Há três, ele e a mulher, Margarida, decidiram trocar o buliço da metrópole pela candura do campo. Luís está intimamente ligado aeste espaço idílico. "É uma referência afectiva bastante forte. Não há como contornar", justifica. Até aos dez anos, enquanto o avô foi vivo, passou aqui muito tempo na companhia dele. E, apesar de ter feito poiso em dezassete cidades diferentes, este é e sempre foi o Sítio. Certeza que o levou a investir na recuperação da propriedade e transformá-la numa quinta de agroturismo. Manteve-se a área, a traça original, as paredes xisto e a calçada de pedra. O lagar de azeite e a casa dos caseiros deram lugar a dez quartos e duas prazentosas salas de estar, onde se combina mobiliário rústico com peça vindas de Macau.
A herdade, com cerca de setenta hectares, tem uma piscina de água salgada e um campo de ténis. E ainda um reduto encantado de sabores e aromas que oferece aos visitantes uma autêntica viagem dos sentidos: a horta biológica. Com couves, alfaces, cebolas, alecrim, alfazema, coentros, uvas, romãs e maçãs. É também um espaço didáctico, onde é permitido ajudar na rega e cultivo, colher produtos e até, para os mais curiosos, desfrutar de alguns briefings sobre a arte de cuidar a terra e seus frutos.
O largo junto à casa principal, a casa que era a do avô e que hoje é a sua, é o lugar de eleição de Luís. Um extenso largo com vista para a horta deitada aos pés dos montes de sobreiros e oliveiras centenárias. E colinas prenhas de trilhos caminhados e por caminhar até à lagoa, à barragem ou simplesmente sem destino marcado. É para aqui que vem nos seus momentos de contemplação e recolhimento. E encontro com as memórias. Ainda se lembra das desfolhadas entoadas pelas mulheres que apanhavam o milho, dos muitos passeios feitos pela mão do avô, dos agricultores alinhados em fila nos dias de receber os pagamentos. Memórias destas e muitas outras coisas que as palavras não traduzem. E só as emoções alcançam.

Friday, February 26, 2010

“Mi casa es tu casa”

Lugar tranquilo que aquieta os sentidos. Para os desassossegar. Tranquilamente. Ninguém passa por La Comarcal por acaso. “O universo conspira” para que tal aconteça. Só pode...

La Parra, a 60 kms de Badajoz, é um lugar bucólico, com cerca de 1500 habitantes. Com gente serena e atmosfera tranquila. Tesouro guardado por entre pastos e oliveiras, onde a calma espreita no dobrar de cada esquina. Na melodia das aves, nas portas deixadas abertas pelos moradores casa sim, casa não, no vagar dos gestos, nos diálogos murmurados de quem vive um compasso de tempo que não é o nosso.
Foi neste lugar, onde nos chamam pelo nome próprio, que Lúcia Dominguín e Carlos Tristancho edificaram La Comarcal, um surpreendente hotel para viajantes. Casados há mais de vinte anos, os dois - artistas de vocação e carreira - abriram mão da movida de Madrid pela tranquilidade rural de Badajoz. Aqui se apaixonaram pela antiga casa senhorial do secúlo XVI, que já albergou o serviço comarcal de trigo (daí o nome La Comarcal). Há cerca de três anos, investiram três milhões de euros e meteram mãos à obra sem macular a traça original. Das longas discussões criativas e do sentido estético de ambos, surge a harmonia de um espaço de sonho.
Dois mil metros quadrados é a área total de La Comarcal. A fachada, discreta, não deixa advinhar a área que se expande depois de passar o portão de inspiração árabe.
Ao entrar, paredes meias com a recepção, fica a sala de degustação que exibe nas prateleiras preciosas caixinhas de madeira recheadas com sabores da Estremadura, como marmelada de figos, mel de eucalipto, patés, vinhos e azeites diversos.
Sobem-se alguns degraus e temos pequenos recantos de bem estar. É também o acesso a três das seis suites que constituem o hotel. Um pouco mais acima, estende-se a principal sala de refeições, que outrora foi lugar das cavalariças da casa. Os solos de pedra, originais, com desníveis e irregularidades, a que se adaptaram as cadeiras e mesas, marcam a personalidade do espaço. Os lavatórios da casa de banho comum, aproveitados das antigas mangedoras dos animais, são também sui generis. O restaurante dispõe ainda de pequenas salas para refeiçoes mais intimistas, onde não faltam sofás e pufs para os comensais desfrutarem da tão abençoada sesta depois de apreciarem as delicias gastronómicas da região. Pratos típicos confeccionados e servidos por donas de casa locais ( e não cozinheiras) que apresentam receitas recuperadas das mães e avós. A sopa de picadilho, a carrilhada de porco ibérico ou a simples sobremesa de morangos com sumo de laranja são algumas das iguarias que se podem desfrutar. Aqui o pretensiosismo não tem lugar à mesa.
Um pouco mais acima, fica a cozinha, a sala do pequeno almoço e as restantes suites. As encantadoras suites. Todas elas amplas, coloridas e com o intimismo das casas de campo. Cada uma com sua singularidade. A descomunal e surpreendente banheira de banho munida de dois chuveiros dourados. A cama de sonho com colchões especiais de penas de ganso, feita para o descanso e o deleite. O casamento entre os móveis recuperados das casas locais e outros desenhados de propósito. Cada um com sua singularidade.
Finalmente, o último lance de escadas. O que dá para o terraço com vista sobre a planície. Dali se vislumbra um pôr do sol único na quieta paisagem de La Parra.

Friday, January 22, 2010

Teim ma nã teim

Por ocasião de uma breve estada no Alentejo, uma amiga minha viu-se confrontada com a proposta sui generis de venda de uma casa. A abordagem partiu de um idoso que frequentava o café onde costumava tomar a bica matinal: “Menina, ténhe uma casa pa vendere mais aléem. Tá todaa arranjadinha, tem dois quatros, sala, casa de bénho e quintal. Quer dizere, o quintal teim ma nã teim…
Convidada uma, duas, três vezes a visitar o imóvel – e apesar de saber de antemão que não estava interessada – Maria aceitou lá ir. Até porque não cabia em si de curiosidade de conhecer o quintal “teim ma nã teim”. Quando lá chegou – e depois visitar quartos e sala – indagou pelo quintal. Ao que o proprietário se prontificou a mostrar, abrindo a porta da cozinha. Maria não conseguiu disfarçar a exclamação: “Este é que é o quintal?!” O dito tinha pouco mais do que um metro. Mesmo à frente, erguia-se um enorme rochedo. “Pois! Como já tinha dito à m’nina: teim ma nã teim. Se mandar a rocha abaixo teim, se nã mandar e deixar ficare como tá nã teim…”

Wednesday, January 13, 2010

Que dor de cabeça, minina

Segue-se o relato exaustivo da conversa telefónica que escutei inadvertidamente durante a viagem de metro Oriente/Alameda. De registar que o discurso foi proferido em grande algazarra. Uma distracção para a minha leitura matinal. Irritante.
“Minina, já deixei de ser isquisita. Sabe, tenho 28 anos e não quero ficar sozinha. Desde que ele tenha dentes na boca (gargalhada estridente)… Há uns anos, ainda via se tinha barriga ou uma perna mais comprida que outra. Agora não. Enfim (gargalhada ainda mais estridente)… Mas sabes, já deixei de escolher gajos na noite. Na discoteca, sabes com’é: eles são uns gatos e elas umas deusas. Mas depois, à luz do dia, são um desastre aéreo (gargalhada histriónica). Nem pensar... Sabes o gerente daquela discoteca angolana, que já morreu? Uma vez, ele me disse: “tu és linda mesmo de dia”. Tinha ficado lá até de manhã. Ele disse logo: “à luz do dia é que se vê se as pessoas são lindas ou não.” E é verdade, minina. Já a Maria… Uma vez fui a casa dela e perguntei por ela à irmã. Acreditas que ela estava sentada no sofá e eu não a reconheci? À noite, monta-se toda e parece uma princesa. Mas de cara lavada não vale nada. É feia como um camião. Sim, é essa mesmo. O que é que tem? Afugentou o gajo, como assim? (pausa muito breve) Quero lá saber, eu também estou no metro, minina. Que é que tem? Eu quero é que todo o mundo se exploda! (pela parte que me toca, tive vontade de lhe meter a mão à cara. Juro que tive. Não satisfeita com a poluição sonora, esta agora também quer que eu exploda! Evoquei as máximas do reiki para não reagir.). Continuando… “Me conta o que aconteceu com ela. Então? Ok, não queres falar, não fales. Tu é que sabes… Vou agora p’ó trabalho e à tarde tenho aula de matemática. Destesto matemática, irra. O meu irmão é que tá bem. Ele é formado em matemática e ganha três mil dólares por mês. Sim, sim, o que tá em Angola. Em dezembro, comprou um jipão, minina. Vermelho. Mesmo lindo...”
Chegámos finalmente à Alameda. Como eu, a rapariga da converseta saíu lá. Sempre agarrada ao telemóvel. Como se fosse uma extensão da cabeça. Antes que ela se colasse a mim de novo, alarguei o passo. Não fosse levar com a monstra da verborreia até à Baixa Chiado. Ufa, que dor de cabeça.

Monday, October 26, 2009

"Vai-te foder" já era

Que mania a nossa de mandar foder quem nos arrelia… Dei por mim a pensar no outro dia que não faz o menor sentido. Se foder é bom – e todos gostamos – que raio de lógica é mandar alguém foder como se fosse maldição?
E se, a partir de agora e sempre que nos sentirmos importunados, em vez de mandar foder, dissermos “nosso Senhor me foda”? Assim fazemos o gosto ao gosto. E sem pecado.
No meu deserto

Tu vais, eu fico. Tu chegas, eu abraço-te. Ainda com saudade. E a ternura que sobra.
Mas não peças mais. Não peças para ser receptáculo das tuas aventuras. Ainda quentes e presas ao lugares de onde vens. Não peças para escutar as tuas histórias. Com lacunas inadvertidas e deliberadas. Não peças a cumplicidade que deixou de existir.
Da próxima vez, leva-me contigo. Vamos olhar na mesma direcção. Com olhos diferentes, claro. Mas de mãos dadas.

Wednesday, October 21, 2009


Até me frita a pipoca

A conversa que escutei no outro dia no metro podia ter resultado num momento risível. Mas o efeito foi outro. A minha pequena dor de cabeça adquiriu estatuto de enxaqueca. Uma jovem falava sobre a escassez de homens para uma relação séria nos dias que correm. O senão ficou entre o estilo e o tom de voz. Uma grande algazarra foi o que foi.
“Amiga, a sério, já não sei o que fazer. Não está fácil arranjar namorado. Estou farta de puxar pela cabeça. Até me frita a pipoca. Só te digo, deixei de ser esquisita. Sabes, tenho 26 anos e não vou ficar p’ra tia. Quero lá saber se não é bom com’ó milho. Desde que tenha dentes na boca (gargalhada estridente). Há dois ou três anos ainda reparava se tinha barriga ou uma perna mais comprida do que a outra. Agora já não (gargalhada ainda mais estridente)…
Mas olha, também não me envolvo com homens na discoteca. À noite, sabes como é, parecem uns príncipes. Mas depois, de manhã, são quase sempre um desastre aéreo (gargalhada histriónica). Nem pensar, amiga. Estás a ver o gerente daquela discoteca angolana, um que já morreu? Uma vez, ele disse-me “És mesmo linda. À luz do dia é que se vê.” Nesse sábado, eu tinha ficado lá até de manhã ( gargalhada escancarada)…
Diz? Quero lá saber, amiga. Também estou no metro e depois? Eu quero é que as pessoas que estão a ouvir se explodam!”
Pela parte que me toca, tive vontade de responder à letra. Juro que tive. Mas evoquei as máximas do reiki e decidi fazer que não estava a ouvir. Quando era pequena a minha avó ensinou-me que “para palavras loucas, orelhas moucas”.
Chegámos ao fim da linha. A jovem que deixou de ser esquisita seguiu com a conversa em alta voz. Eu segui com a dor de cabeça em alta escala. Segundo as palavras dela, “frita da pipoca”. Alarguei o passo já incapaz de “encaixar” a verborreia até o destino seguinte. 

Thursday, August 27, 2009

Gosto de escrever porque sim. Gosto de escrever para sossegar a alma. Gosto de escrever porque me arruma as ideias. Gosto de escrever quando tenho coisas para dizer. Importantes ou fúteis. Gosto menos de escrever quando há um calendário a respeitar. Detesto dead-lines. Atrofiam-me. E as ideias parece que encolhem. Como um pénis em contacto com água fria. A sério…
Gosto de escrever fora de horas. Gosto de escrever dentro de horas. Gosto de escrever quando estou só. Ou quando me sinto só. Gosto de escrever todos os dias. Um parágrafo, dois ou mais. Gosto de escrever para mostrar. Gosto de escrever para esconder. Gosto de escrever para dissimular. Gosto de escrever para brilhar. Gosto menos de escrever quando me traçam balizas. Fico fora de jogo. A bola não flui da mesma forma. A sério…
Gosto de escrever com o coração. Gosto de escrever com os pés. Gosto de escrever sem filtros de espécie alguma. Gosto de escrever ao sabor do momento. Seja ele dor, felicidade ou capricho.

Tuesday, August 25, 2009

Querido blog, hoje acordei triste. Com uma sensação amarga. Não falo do amargo de boca característico de quem acaba de acordar. O amargo que sinto não desaparece com uma escovagem de dentes.
Não sei explicar muito bem o que se passa… Tenho a mania que sou intuitiva e controlo tudo à minha volta. Na verdade, a intuição apenas me traz sofrimento ao quadrado. E isso é tão estúpido quanto triste. É que já não basta o sofrimento que se segue. Eu sofro também o sofrimento que antecede. Desculpem os pleonasmos, mas quando estou neste estado de alma sou fã acérrima das figuras de estilos. Não há como redundâncias e contradições para espelhar a cores a confusão dos meus pensamentos.
Às vezes, penso que tenho um distúrbio mental grave. Chego mesmo a equacionar a esquizofrenia como possibilidade. É que num momento estou muito feliz e a sentir-me a mulher mais afortunada do mundo. E, quase a seguir, caio num pranto de colossal tristeza. O facto de ser gaja e ter as hormonas em batalha não ajuda. Agora que “desbafei”, como diz uma amiga from England, já me sinto melhor. Aliás, já me sinto ridícula. Com o alarde criado à volta de nada. Incontornável. Esta minha dualidade…O que vale é que estou na contagem decrescente para o fim do dia. Pressinto um dia de sol amanhã. Literal e metaforicamente falando.

Thursday, July 23, 2009

“E a princesa entregou-lhe a chave do seu amor...” Assim dizia o bordado vermelho sangue no vestido branco da Luisinha. Uma noiva original. Como original é o amor.
A minha amiga, tal como eu, acredita em contos de fadas. E, ao contrário de mim, sempre idealizou um casamento de princesa. Nesse dia, o do casamento, emocionou todos os presentes. Com o brilho dos seus olhos. Nunca a tinha visto tão feliz. Nem tão apaixonada. Nem tão bonita.
Não tenho falado com a Luisinha. Entretanto, tornou-se esposa. Entretanto, foi mãe. Entretanto, está a concluir a tese de doutoramento. Entretanto, com tudo isto, quase perdemos o rasto uma da outra. Tenho pena.
Muitas vezes, o quotidiano não se compadece da amizade. Muitas vezes, o tempo que sobra é pouco e quase sem qualidade. Muitas vezes, mais vale adiar um telefonema do que fazê-lo em clima de tensão. Muitas vezes, as pessoas afastam-se inadvertidamente. Tenho pena.

Wednesday, July 15, 2009

Quem não sabe inventa

As desculpas genéticas irritam-me solenemente. Estava precisamente a falar disso com uns amigos outro dia. A propósito de alguém culpar os genes pelos quilos que ganhou a mais. “A mãe também é generosa de formas, para não dizer, muito generosa…”, justificava assim uma das presentes.” “Não me venham com tretas. E o fast food, os gelados com chantily, as noites de copos não contam?”, retorqui de imediato.
A discussão continuou... Mas passou a outro protagonista. Este não tem problemas de peso. Ou melhor, de excesso de peso. É mais de falta dele. Tudo devido ao consumo abusivo de cocaína. “Agora não me venham justificar o comportamento aditivo com o facto do pai fumar... “, avisei logo. Antes que a conversa metesse nojo. Mesmo assim, houve quem entendesse interceder e justificar. Não a “favor” da genética, mas da educação. “Coitado, o pai é uma figura de Estado e nunca teve tempo para ele. O rapaz passou a infância enclausurado num colégio interno.” Se teve educação é porque teve. Se não teve é porque não teve. Enfim…Quem somos nós para aferir as razões que levam alguém a engordar ou a tomar drogas? Um dos interlocutores, a páginas tantas, depois de ouvir argumentos e contra-argumentos daqui e dali, resolve sacudir a discussão: "Nós somos 12 irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Lá em casa fomos todos tratados e educados da mesma maneira. Eu dei em paneleiro, tenho um irmão drogado, uma irmã puta e outra cabeleireira." Fez-se silêncio por breves segundos. Logo a seguir, rebentámos numa risada. E voltou a fazer-se silêncio. Cada um com as suas ilações… Realmente! Quem somos nós para discorrer sobre o que não sabemos?

Thursday, June 25, 2009

God is gay

God is gay. Uma heresia. Mas espelha na perfeição o deslumbramento que senti... Nunca tinha visto tanto homem lindo por centímetro quadrado. A sério. Estive em Paris para um casting e, por mero acaso, fui atraída para uma festa sui generis. Ia a passear com os meus colegas depois do jantar. Procurávamos um bar simpático para tomar vinho e desfrutar da atmosfera nocturna da cidade da luz. No caminho, esbarrámos num quarteirão imponente com jardim, de onde saíam ondas de animação e glamour. É ali que queremos estar. A certeza foi tão imediata quanto unânime. Fomos, então, de penetras ao club-sandwich, no edifício Pierre Cardin. Depois de pagarmos 25 euros cada um. Assim que passámos o portão, deparámo-nos com uma autêntica fonte de tesão sonoro e visual. A música era sexy e os convivas soberbos. Era uma festa gay topo de gama. Creme de la creme. Manequins, actores, cineastas, criadores de moda. Enfim... Entre bebericar champanhe, dançar e disparatar, não conseguimos evitar de espantar para algumas criaturas. Homens sobretudo, mas também mulheres, de estética arrojada. Demos de caras com o estilista Mark Jacobs, a ex-namorada da Lindsay Lohan, o manequim Jacomossi e outros tantos cujos nomes me escapam. Eu, que sou despudorada, senti-me uma verdadeira colegial. Faltavam-me 15 centímetros de salto. Inadmissível nesta festa. Até porque os reis da noite os tinham. Vi homens lindos, de corpos esculpidos, de calções rasgados e brutos stiletos. Uma inquietação. "Mon Dieu, faz-me gay!", pensei vezes sem conta...

Sunday, April 26, 2009


As desculpas não fazem delite

Há atitudes que não se justificam. Mas podem enquadrar-se. No sábado, eu e o meu namorado fomos jantar com dois amigos. Tudo indiciava uma noite agradável, apesar da chuva intermitente. Fomos ao Bocca e comemos que nem abades. Na verdade, que nem abades com pouco apetite. Já que a nouvelle cuisine não se compadece de estômagos toscos como os nossos. Mas deparámo-nos com um maravilhoso menu degustativo. Das entradas de vieiras com trufas e caviar aos pratos de bodião com lapas, ao atum tekaki, sem esquecer o pudim de ricota acompanhado de sorvete de manjericão... Tudo regado de um encorpado tinto do Douro. Acabado o jantar e ainda por acabar a conversa, fomos até o Lux. Como estávamos todos numa de serão ligeiro continuámos no vinho. Ficámos junto ao bar e - entre um copo, um fait divers e uma gargalhada - se fez o convívio. Entretanto, descobri que o barman preparava uma bebida decorada com rodelas de pepino. Pedi-lhe uma e gracejei com o grupo, colocando-a nos olhos em jeito de máscara cosmética. Péssima ideia. Esquecera-me do rímel e do eyeliner que de repente me vieram à memória quando vi a cara de horror do meu namorado. Intuí logo o borrão. Antes de correr para a casa de banho atirei, sem pensar duas vezes, a rodela de pepino. Que foi aterrar junto ao peito do empregado. Bastou uma fracção de segundos para me arrepender do gesto. Mas já não o podia suspender. Depois de me retocar, voltei ao bar decidida a desculpar-me. Protagonismo que me foi tirado pelo barman. Antes de me deixar falar, repreendeu-me. Assumi a culpa e pedi mil perdões pela atitude infantilóide. Mas a diversão ficou por ali. Assim como a vontade de ali estar. Senti-me triste e bastante envergonhada.
De volta a casa, e a propósito de atitudes irreflectidas, lembrei-me do Pepe, o jogador que está na berlinda por ter agredido ao pontapé um adversário em pleno jogo. Não sei o que se passou na cabeça dele. Nada justifica a violência, mas recuso-me a crucificá-lo... Por detrás ou ao lado do gesto, há sempre um contexto. Há atitudes que não se justificam. Mas podem enquadrar-se. Pior do que o repúdio de quem testemunhou o episódio, pior do que o castigo das entidades reguladoras e pior do que tudo é a severa auto-censura. O rapaz está com certeza arrependido do que fez. E, se não sabia, ficou a saber que as desculpas não fazem rewind. Nem delite.

Thursday, March 19, 2009

Sou a nova colaboradora da Revista Happy. A revista mais "cute" do universo português. A partir da próxima edição, passo a assinar alguns temas. Estou a partilhar a novidade não apenas por vaidade (que também a tenho, depois de ter estado alguns anos fora do mercado da escrita), mas sobretudo para vos pedir sugestões. Do sexo ao esoterismo, conto escrever apenas sobre assuntos que considero felizes. Não se acanhem, escrevam-me com ideias giras. Contem-me histórias. Dêem-me pistas. Obrigadão. Muá